Ser artista é legal, mas que sejam os outros

Pra que serve a música? Muitas pessoas vivem um verdadeiro conflito existencial quando pensam que devem escolher entre fazer música (ou seguir um caminho profissional em qualquer arte) e pagar contas. A verdade é que se você vive de arte, em algum momento provavelmente pensou (ou vai pensar) em mudar de ramo, dadas as dificuldades de se ajustar à “vida normal”. Mas já se perguntou qual o benefício existente em contrair e pagar essas  contas todas que pagamos? Por que nem sequer questionamos a necessidade e valor de certas despesas? Elas são mesmo necessárias?

Se fizermos uma pesquisa rápida, como fazemos hoje em dia sobre qualquer coisa – simplesmente escrevendo no Google a nossa dúvida e esperando respostas prontas –, o que vamos encontrar são respostas tão profundas quanto nossas perguntas. Por outro lado, se soubermos como olhar a situação, vamos encontrar pistas interessantes. Entre os principais motivos listados para se aprender música, estão: desenvolver a coordenação motora, aguçar a concentração, promover a socialização, melhorar a memória, aumentar a responsabilidade, estimular a responsabilidade e organização do tempo e etc., etc., etc. Mas também encontrei motivos como “porque é legal”, “música ajuda a pegar mulher”, “não é tão difícil como parece”. Sim, e daí? Nenhuma dessas razões são, de fato, razões diretas para dedicar parte da sua vida à música e menos ainda para se tornar um profissional da área.  

Em meio aos resultados dessa fake pesquisa havia uma frase: “música faz a vida valer a pena”. Gosto dessa. Frase bonita, frase formosa, frase bem feita. Se a música e a arte fazem a vida valer a pena ou, como disse Nietsche, existem para que a realidade não nos destrua, por que somos tão irresponsáveis quanto a isso? Não tenho dúvida de que a maior parte das respostas socialmente aceitas são, na verdade, gelo seco no nevoeiro.

Em meio à grande demanda em fazer com que nossa sociedade absorva tudo como conhecimento científico, não percebemos que artista e investigador da arte são coisas totalmente diferentes. Consequências da nossa atitude – muitas vezes inconsciente, muitas vezes intencional – de valorizar o “papel” ou o “canudo” ou o título ou de nos fazer sentir profissionais, colocam o artista num lugar excêntrico de objeto de estudo a ser valorizado através do crivo da academia. Ser artista é legal, mas deixemos que os outros sejam. Desenvolvemos manuais para quase tudo mas não damos muita importância ao papel do artista na sociedade. Na verdade, a musicologia e a etnomusicologia tem, de certa forma, essa finalidade. O problema aqui é que há também um grande problema dentro do problema: não nos interessamos pelo conhecimento acadêmico e/ou científico, a menos que ele sirva para atender aos nosso interesses. E temos competência para ler e interpretar tais estudos? Como fazer com que tais estudos dialoguem com a “vida real”? O objetivo aqui não é fazer uma crítica à academia – embora seja ela merecedora de muitas –, afinal, a academia é também vítima em muitos aspectos. E seguimos olhamos para frente porque olhar para trás nos traz saudades demais. Não nos desviemos de olhar para coisas que nos elevam por causa do medo de morrer de fome.

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Cro-Magnon artists painting woolly mammoths in Font-de-Gaume, AMNH.

O irmão ambicioso da arte é o entretenimento. Vejo a arte como um tipo de filosofia. E vejo muitos perguntarem pra que serve a filosofia. Imediatamente devolvo a pergunta: pra que serve a economia? Guardamos dinheiro para comprar coisas que não precisamos e nos convencemos que prosperidade é ter sempre mais. Pra que serve a física e a geografia? Fazemos de conta que entendemos o mundo à nossa volta mas, em pleno século XXI, há governos premiando “estudiosos da teoria da terra plana”. Pra que serve matemática? Nossa incógnita varia quase sempre de prazeres efêmeros para felicidades fugazes. Pra que serve a medicina? Salvamos cada vez mais vidas com que não nos importamos e vivemos cada vez mais tempo para assistir nossa artificialidade sob efeitos de remédios. E não precisa ser assim.

Enquanto trabalhamos incansavelmente na manutenção da ilusão de conhecimento, uma das respostas possíveis para aquela pergunta inicial (pra que serve a música?) cabe também a praticamente em qualquer contexto: crescer. Aristóteles teria escrito que a música eleva a alma acima da sua própria condição. Num mundo em que não pensamos muito em alma, elevá-la torna-se algo meio secundário. Sem fugir do trocadilho, tentamos – com a música – desesperadamente nos harmonizar com o mundo. A arte é a expressão desse desespero. A verdade pode ser libertadora e ao mesmo tempo difícil de suportar. A maneira como lidamos com a arte é, ironicamente, uma metáfora da nossa própria realidade.

A arte e a música são algumas das formas com que a verdade nos é apresentada. Sendo assim, retornemos à questão: Pra que serve a arte?

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