Ouço bebês chorando

Túlio Augusto_jazz_guitar_800px-Louis_Armstrong_NYWTS_3_Herman Hiller

Acabei de ver um vídeo de Louis Armstrong cantando “What a Wonderful World”; uma versão ao vivo, mais bonita. Imediatamente surgiram tantos pensamentos que pareciam não estar devidamente conectados, mas que aos poucos deixam transparecer suas razões. Me perguntei como ele (Louis Armstrong) conseguia ter sempre um sorriso tão cativante e capaz de fazer acreditar que o mundo é mesmo assim tão maravilhoso. Um músico dos melhores que o mundo já conheceu teve muitos motivos para pensar o contrário. E certamente pensou muitas vezes. Foi aí que me lembrei de Dizzy Gillespie e sua campanha presidencial independente, justamente em 1964, ano em que o Brasil institucionalizaria a tortura, a mordaça e o desprezo pela crítica e pela arte. Durante sua campanha, Dizzy disse que combateria o racismo e lutaria por direitos iguais para brancos e negros; colocaria Miles Davis no comando da CIA (talvez para fazer fluir a inteligência e a criatividade), Louis Armstrong (a personificação do jazz) como ministro da agricultura, Duke Ellington como secretario geral (“O Duque” da medalha da liberdade) e Malcom X como procurador geral (aquele que disse que “toda a vida de um homem pode ser mudada por um único livro”). É claro que Dizzy sabia que não seria eleito, mas sabia que isso não significava perder. E é justamente aí onde os tais pensamentos se convergem. A vitória não é simplesmente um fato pontual; a vitória traz consigo o paradoxo da constância: constrói bases que são apoiadas em derrotas. Não há homens grandes que não tenham sido pequenos. Não há alegria que não seja o consolo de algum sofrimento. Lembrei também do filme Bird, de Clint Eastwood, sobre a vida de Charlie Parker (que me fez querer tocar jazz para sempre), em que Dizzy conversa com Charlie e diz que triunfaria, não simplesmente porque queria, mas porque achavam que ele não era capaz. O sucesso e a felicidade (se é que não são a mesma coisa) são um caminho de descoberta e resistência. “Ouço bebês chorando e os vejo crescendo. Eles vão aprender muito mais do que eu jamais saberei”.

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