Carta aberta de um músico a quem possa interessar

Quando pensei em escrever uma carta aberta, minha vontade inicial era a de me dirigir aos meus colegas músicos, pois conheço na pele as dificuldades que enfrentam, assim como os sentimentos que trazem consigo. Tenho estado cansado, mas não o bastante para desistir do “indesistível”.

Há muitos sentimentos, sensações e pensamentos envoltos em todo esse complexo social do fazer artístico e, mais especificamente, musical. Todos sabemos o quanto a música está presente no nosso dia-a-dia e do poder que ela tem. Através da música, muitas vidas são transformadas (pra melhor) diariamente e continuamente. Associamos a música a momentos especiais e marcantes das nossas vidas; fazemos amigos através dela, partilhamos uma música com amor da nossa vida, casamos ao som de música. Enterramos nossos pais ao som de música. Celebramos a vida, voltamos no tempo, sonhamos com o futuro. Não poderia me dirigir apenas aos meus colegas. É preciso falar de forma inclusiva, aberta e sem rodeios. É preciso falar diretamente a todas as pessoas. A quem quiser ouvir. A quem possa interessar.

A música é também o meio pelo qual muitas pessoas escolheram viver (e foram escolhidas como instrumentos de transformação). Profissionais da música. Professores, performers, terapeutas, compositores, cantores. Muitos. Muitos mesmo. E ao redor disso tudo, gira um grande mercado que vai desde aqueles que fabricam instrumentos, desenvolvem aparelhos e equipamentos de som, produzem festas, vendem produtos, etc. No entanto, é lastimável que seja aceita, de forma tão larga, a ideia de que o músico vive apenas do prazer de seu trabalho. Ou mesmo que seu trabalho não seja visto como trabalho. É importante lembrar a todos os que nos cercam e também a nós mesmos: a música só existe se o músico existir.

Tenho visto muitos dos meus amigos se manifestarem com grande tristeza sobre a situação que os rodeia. Vi muitos deles desistirem de uma carreira musical por conta das dificuldades e da maneira como são tratados. Penso tanto nessas coisas quando vejo meus alunos com os olhos brilhando cheios de sonhos! O que deveria dizer a eles? Digo sempre a verdade. A boa e a ruim. Digo que concursos são uma merda e que música é muito mais do que isso. Fazer música não é uma competição. Bartók já dizia que competições são para cavalos, não para artistas. Digo que muitos vão sofrer (e muito) mas que vão sentir o que só quem toca um instrumento sabe do que estou falando. Digo que vão ver as horas passarem como se fossem segundos e que podem transcender ao ponto de serem incompreendidos.

Há muitas coisas que precisam ser ditas. E tantas outras que merecem muito mais atenção e reflexão do que nos fazem acreditar. Nós, músicos, partilhamos a responsabilidade de como nos tratam e devemos nos posicionar sobre o que muitas vezes falamos mas não demonstramos através de atitudes.

É preciso que fique bem claro que o respeito é a base de qualquer relação. Uma relação sobrevive sem amor, ainda que sem sabor, mas não sobrevive sem respeito. E o respeito próprio, o auto respeito, é o ponto de partida.

Amigos músicos, não deixem que usem contra vocês o amor que tem pelo que fazem e a vontade de exercer aquilo para o que nasceram. Não se deixem conduzir a situações de trabalho precárias e desrespeitosas;

Não deixem que digam qual o valor do seu trabalho. Valor e preço são coisas distintas. Não aceitem trabalhar por um preço que não seja justo. Reconheçam seu valor e apresentem o preço do seu serviço;

O artista precisa do público, mas as pessoas precisam de arte. Não se deixem iludir;

Aprendam a dizer “não” quando não houver dignidade envolvida em uma proposta.

Quantas vezes nos perguntamos porquê aqueles que fazem uma música de péssima qualidade ganham tanto dinheiro e muitos daqueles tidos como grandes músicos recebem propostas para tocar em troca de cerveja? Ou comida? Ou diversão? Ou nada? Não há nada de inocente na frase “você vai poder divulgar seu trabalho”.

A verdade é que enquanto brigamos uns com os outros, ideias falaciosas são enfiadas nas nossas cabeças. Existe, sim, música ruim. O que não existe é essa história de que o “público” gosta disso ou daquilo. Não subestimem o público. Todos nós somos público. Não aceitem serem tratados como idiotas. Não existem isso de promoverem grandes eventos com a “música que todos gostam”.

Caros contratantes, produtores, empresários, políticos, gestores culturais, respeitem as pessoas. Aprendam a responder e-mails, a retornar ligações. Aprendam a falar francamente. Paguem dignamente e sem demorar meses ou anos, como se vocês estivessem com a razão. Tratem gente como gente. Não fiquem chateados quando não aceitarmos as propostas indecorosas que vocês tem a ousadia de nos fazer. Não queixem-se, sem razão, quando lhes cobrarem o que devem. O merecedor da vergonha é o devedor. Valorizem a própria terra e não apenas a terra dos outros.

Pessoas que vão a concertos, fãs, público em geral, valorizem os artistas. Não peçam para entrar “de graça” nos shows para depois gastar o dinheiro no bar. Aprendam a valorizar o trabalho daqueles que dedicam suas vidas à arte.

Músicos, respeitem a si mesmos e valorizem seus colegas. Não sejam “mendigos” de editais e programas de governos que nos usam para eleger demagogos. Busquem outras formas de financiamento. Envolvam-se com a comunidade. Não utilizem apenas a arte como comunicação, usem também sua língua. Unam-se. Permitam-se desanimar com os tantos “nãos” que recebemos, mas encontrem forças pra superar e continuar.

Pessoas, falem e conversem entre si, mas sejam coerentes. Aprendam a se comunicar, a diferenciar o que é bom e o que é ruim. Sejam menos passivas. Não aplaudam tudo de pé. Não aplaudam quando não gostarem. Digam o que pensam com verdade. Não aceitem o que tentam nos impor através do senso comum ou mediante repetição.

Amigos, sigam os clichês certos, como “seja a mudança que você quer ver no mundo”, ao invés de “não adianta tentar”.

Sempre que sinto o que sinto agora, penso nesse poema de Leminski:

“Nesta vida, pode-se aprender três coisas de uma criança: estar sempre alegre, nunca ficar inativo e chorar com força por tudo o que se quer.”

Que possamos nos lembrar do que somos.

Beethoven_letra.jpg

 

 

 

 

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