Benditos sejam os ladrões

Quando eu era jovem (ainda mais jovem, claro), certa vez, tive um colega na escola que, segundo diziam, tinha algum problema mental. A verdade é que desde que me lembro da escola, lembro de algum colega que as pessoas se referiam como “meio doido” ou alguém que não “batia certo”. Lembro que um dia, esse meu amigo tentou combinar de irmos todos jogar bola, ali mesmo no colégio em determinada hora. Quase ninguém foi. Para a maioria, pareceu apenas uma “sugestão”. Também não fui. No dia seguinte, ele me disse que eu mentia. À medida que os anos foram passando, fui percebendo o quanto o meu amigo estava certo e o quanto aprendemos a valorizar coisas inúteis na escola. AlmustafaAprendemos matérias que dizem ser essenciais, mas passamos por cima de princípios que vão muito além. Coisas simples, mas que tem impactos gigantescos, como o simples compromisso da palavra. Naquela época, eu ainda não sabia que seria professor, muito menos professor de música. Hoje, muitos dos meus alunos acham que o que ensino é filosofia. E muitas vezes é, já que se aborda filosofia nas escolas como apenas uma matéria. Música e filosofia são apenas “sugestões”. O que importa é sermos profissionais, ganharmos dinheiro e mostrarmos quão bem sucedidos somos. Na Bahia a gente diz: “quem é doido?”. É uma grande loucura ser professor, ainda mais de música ou filosofia. Mas mesmo esses não estão livres de ver as coisas como “sugestões”. Obviamente, me refiro a um verdadeiro professor, não alguém que apenas exerce uma atividade sem pensar na responsabilidade e na transformação das vidas que tem nas mãos. Falo constantemente dos bons bons professores que tive, do quanto agregaram algo perene em minha vida. Também falo dos professores maus (tive vários desses, como todo mundo) e do quanto me ensinaram o que não devo me tornar. Sei que aos poucos fui entendo que aquilo que chamavam de loucura e que tanto falavam, na verdade, era coragem de dizer o que é simples, mas que todos acham normal não dizer. E são tantas máscaras! Tantas, que muitas vezes não sabemos qual a verdadeira face. Gibran escreveu um conto* em que diz que quando roubaram suas sete máscaras, saiu pelas ruas à procura dos ladrões e alguém gritou chamando-o de louco, sentiu pela primeira vez o sol beijar a sua face desnuda e se encheu de amor pelo sol. E disse: “benditos sejam os ladrões”. Hoje, entendo pessoas como Christopher Candless (esse é o nome que seus pais lhe deram. Seu nome verdadeiro, aquele que escolheu, era Alexander Supertramp), que abandonam o que muitos buscam a vida toda para estar em contato com a natureza. Com sua própria natureza. Pra mim, o maior “problema mental” é mesmo aquele que escolhemos ter e assumimos como filosofia de vida. Vã filosofia. Filosofia, sabedoria, loucura e justiça são frequentemente ilustradas por meios dos olhos, do olhar. Aquilo que vemos, escolhemos ver. Nossos olhos e os olhos dos outros.  Voltando a Gibran, aquele que é, talvez, meu louco preferido, e não esquecendo dos olhos, Gibran escreveu sobre a justiça ser feita ao se arrancar o olho que não faz falta**. Ainda Gibran, sobre a citação “Se teu olho direito te escandalizar, arranca-o e joga-o fora; porque é melhor para ti que um dos teus membros pereça, do que teu corpo inteiro seja laçado no inferno. E se tua mão direita te escandalizar, corta-a e joga-a fora; porque é melhor para ti que um dos teus membros pereça, do que todo o teu corpo seja lançado no inferno”, ele compreendeu, ao ver que naquela cidade nenhum homem ou mulher tinha dois olhos, e que não era tão jovem para não entender e sabia ler as escrituras, e foi-se embora. ***
O Louco. O Louco. Gibran, Khalil.

**Guerra. O Louco. Gibran, Khalil.

***A Cidade Santa. O Louco. Gibran, Khalil. 

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