“Jardim da minha amiga todo mundo feliz até a formiga” *

Um tempo atrás um italiano esteve aqui em casa e como quase todo italiano, gostava de um macarrãozinho. Por isso, comprou um daqueles vazinhos de salsa que vendem no supermercado. Ele foi embora e a salsa praticamente morreu, até que eu coloquei num vaso de verdade e comecei a regar de vez em quando. Ver aquela salsa crescer me fez lembrar de muitas coisas da minha infância, de quando eu molhava as plantas lá em casa todo dia à tardinha. Me fez lembrar também que ao contrário do que eu pensava na época, eu adorava jardinagem. Então comprei umas sementes e comecei a plantar várias plantinhas diferentes aqui em casa: coentro, tomate cereja, hortelã, pimenta, morango, arruda, camflores-de-amor-perfeito-amarelas.jpgomila, erva cidreira, lavanda, cebolinha, tomate. Também cresceram algumas plantinhas que eu não sei o que são, mas acabei deixando por curiosidade. Certo dia, levantei cedo e comecei a cuidar das minhas plantinhas e saí pra comprar mais sementes e vazinhos. Foi então que eu cometi um maldito erro, que me fez aprender muito com tudo que estava acontecendo e fazer ainda mais analogias. Enfim, comprei a porra de um adubo químico. Coloquei demais e matei quase todas minhas plantinhas. Fiquei triste e puto da vida com aquele adubo fila da puta. Depois, o tempo foi passando e fui percebendo o quanto minha ansiedade de ver tudo grande e cheio de frutinhas e florezinhas ofuscou o melhor da jardinagem e da vida: ver as coisas acontecendo lentamente e acompanhar o processo em seu próprio tempo. De forma pragmática, a natureza me mostrava que embora o tempo que é próprio (e necessário) para cada coisa acontecer possa ser flexível, tem limites. Por mais amor que eu sentisse pelas minhas plantinhas, eu sufoquei e matei muitas delas simplesmente porque não tive respeito e não dei a elas o tempo e o espaço que cada uma precisava. Também aprendi com aquele adubo miserável que não há formas artificiais de preencher o que nos falta. Sofri, mas comecei tudo de novo. Também me lembrei de um pequeno detalhe: sempre dá pra recomeçar. Lembrei daquele primeiro momento de quando comecei a regar os vazinhos abandonados que encontrei e começaram a surgir flores tão bonitas e plantas tão fortes e vivas que antes pareciam mortas e tristes. Não importa quão mortas as coisas pareçam estar, elas vão florescer no momento certo. Hoje vou plantar amor-perfeito. Tem um ditado que diz que “há muito mais coisas crescendo no jardim do que pode saber o jardineiro”. Quando as plantinhas que eu plantei e as que eu não plantei começaram a crescer novamente, muitas outras coisas cresceram juntas com ela. Tem crescido. E há tanta coisa que eu poderia dizer sobre tudo isso. Mas cada um que plante seu jardim.

* Paulo Leminski

Anúncios

Algo a dizer?

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s