Armas e drogas: legalização de brinquedo

Um grande amigo me trouxe boas recordações de algo que eu disse (e nem me lembrava) quando tinha 10 anos de idade: “não gosto de armas porque as armas matam as pessoas”. Naquele mesmo momento, outro amigo respondeu que quem mata não é a arma, mas os dedinhos. Como essas lembranças nos levaram a cruzar a discussão sobre armas, drogas e legalização das mesmas, sob os possíveis pontos de vista da direita e esquerda, aqui exponho minha opinião sobre esse assunto. De antemão, queria dizer que a expressão “cidadão de bem”, usada nesse contexto, é ridícula e me faz ter vergonha de quem a usa.
Há muitos pontos nessa discussão que levam a uma reflexão muito mais profunda do que qualquer debate por Facebook pode oferecer. Pra começar, as armas, por si só, carregam a ideia da morte porque foram criadas por pessoas com essa intenção. A mão escolhe estar armada. As armas foram criadas com a finalidade de matar, ainda que alguém possa usar o argumento de uma possível defesa. Isso é irrefutável. No fundo, as muitas perguntas aqui são: Você está disposto a matar? Pelo quê você estaria disposto a matar? Quando? Sob que justificativa?
Legalização de armas e drogas envolve questões muito diferentes. Sabemos, por exemplo, que o consumo de certas “drogas” pode ser (e, de fato, é) benéfico e medicinal. O mesmo não acontece com as armas. Nunca vi nada ser construído através de armas. Conheço um cara que diz algo genial sobre essa ideia absurda de legalização de armas. Ele diz: “eu sou pintor, logo, quando vejo um pincel só penso em usar, em fazer um quadro. Mesmo quem não pinta, ao segurar um pincel, pensa em pintar e ser pintor por algum momento. É a mesma coisa com armas. Se você tem um revólver, você quer atirar porque ele foi feito pra isso”.
Tudo bem, você pode argumentar que arma pode ser usada pra caçar animais, por exemplo. Mas o que vemos é que as armas envolvidas nessa problemática de contrabando são as utilizadas em guerras (ou aquelas que deveriam ser utilizadas pela polícia). E caçar, a essa altura da história da humanidade, é muito mais irracional que a ideia que algumas pessoas tem sobre os animais (sem falar que é cafona pra caralho).
Agora, e se me perguntam se a solução pra acabar com o tráfico de drogas ou armas é a legalização? É óbvio que a legalização resolve o problema de tráfico, por definição, mas não incide na cerne do problema. Legalizar não torna nada certo ou errado, apenas normatiza procedimentos para um determinado exercício e finalidade. É só lembrar da escravidão, que já foi legal, mas nem por isso foi algo correto (e, institucionalizada ou não, ainda hoje existe).
Depois, há muito tempo que a polarização de tudo (ou mesmo política, se preferir) como direita e esquerda é absurda, desnecessária, ilógica, insuficiente e limitadora.
Antes de pensar em legalização, acho que deveríamos pensar na necessidade e/ou benefícios. Há necessidade e/ou benefícios no uso de certas drogas? Talvez. Há necessidade e/ou benefícios no uso de armas? Não. Se alguém disser que sim, baseando-se no argumento da defesa, porque outro alguém pode atacar primeiro, então é porque já havia outra arma antes. Então a resposta continua sendo “não”. Vale lembrar também que é legalizada a comercialização de cigarro, álcool, antidepressivos, agrotóxicos, e uma infinidade de outras substâncias que as pessoas, em geral, nem sequer sabem que existem, mas consomem. E escolhem consumir. E escolhem se manter desinformadas. E se matar, a depender de como o fazem.
Mais uma vez, os fatos me levam a refletir sobre aquilo que nos une e nos separa, sobre o que faz bem e o que traz sofrimento.
Quem é que ganha e quem é que perde nessa história toda?

bernie
“Flower Power”, de Bernie Boston, concorreu ao Prêmio Pulitzer e foi tirada em um protesto pacifista em Washington, no dia 22 de outubro de 1967.

 

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