Louco o bastante

Eu me lembro da primeira vez que ouvi Monk. Não entendi nada e muito menos gostei. Tempos depois seria fácil entender que, na verdade, eu não tinha a menor ideia do que música é. Música é algo ao mesmo tempo muito simples e de uma profundidade inexplicavelmente infinita. Qualquer um, músico ou não, já viu em algum lugar um anúncio sobre aprender tocar um instrumento, seja ele qual for, em um tempo determinado ou de uma maneira “nova”. Não há nada de novo nesse mundo. Tudo que é novo é, em realidade, algo que estava até então desconhecido. Mas sobre tocar um instrumento há um detalhe que, de tão óbvio, passa despercebido: tocar um instrumento não é fazer música. Mesmo o que chamam de composição é completamente diferente de fazer música. Reza a lenda que Beethoven disse que é totalmente aceitável tocar uma nota errada, mas inadmissível tocar sem paixão. Um instrumento é, ao pé da letra, um instrumento para se dizer algo. Sempre que existir algo a ser dito, esse algo encontrará uma maneira de ser dito. É muito triste ver pessoas que se chamam músicos não terem a menor ideia do que estão fazendo de suas vidas (e da vida dos outros, no caso de professores que ensinam sem ter a menor ideia do que estão fazendo). É triste ver que o desânimo toma conta de tantos que chega a ser normal a crença de que a arte não vale a pena, não dá futuro, não leva a lugar nenhum. Ensinar, seja o que for, é parte de um processo de auto educação e construção de convicções. É possívelThelonious Monk Advice ensinar o que não se acredita. Mas ensinar não é, necessariamente, educar. A consciência do que é educação é tão importante e rara como consciência musical. Comecei a entender o que música é quando comecei olhar ao redor, quando olhei para o que estava por trás do fazer musical, quando olhei para o que movia aqueles que eu conseguia reconhecer como artistas, quando percebi que tudo transparece – desde superficialidade e falsidade, até convicções e coisas inexplicáveis que tocam as pessoas para a vida toda. Mo
nk, certa vez disse em um ensaio: “o que quer que você pense que não pode ser feito, algum dia vai aparecer alguém e fazer”. Também disse que “uma nota pode ser tão pequena como um alfinete ou grande como o mundo, só depende de sua imaginação”. Em outras palavras, a música, por si só, não é nada além daquilo que você tem depositado nela. Einstein já sabia que a imaginação é mais importante que o conhecimento. Monk, sendo louco o bastante pra ser mago e monge, através das notas que não tocou, disse muito mais que as notas vazias que por aí ecoam.

 

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