Magia (de)compor

A cada dia que passa me identifico menos com a denominação “compositor”. Na verdade, pra mim, “ser compositor” sempre esteve contido num conjunto mais amplo: “ser músico”, que, por sua vez, está dentro de “ser artista”. À medida que o tempo passa, a impressão de que fazer música e ser compositor tem se tornado coisas distintas se fortalece e se estabelece como uma triste verdade. Também não é novidade que muita gente acredita que uma partitura – que na realidade é uma representação musical – seja a música, em si. Nunca acreditei nisso. Mas focando no compositor, enquanto indivíduo que assim se denomina, meu sentimento é de distanciamento gradativo. Muitos compositores nem sequer tocam (bem) um instrumento. Diferente do que existia no passado, quando compositores podiam até dedicar-se exclusivamente à composição, mas tinham alcançado em algum momento da vida um nível alto de execução instrumental, muitos compositores de hoje colocam o “título” de compositor num lugar de justificativa para o não êxito em tocar um instrumento em qualquer fase da vida. Obviamente, a vaidade e o distanciamento de uma concepção mútua sobre o que a música é, contribuem para o alargamento do abismo entre arte e verdade. Mas também é verdade que tantas definições mudam com o tempo. A transformação é inerente a tudo na vida. É natural. E é apoiado nesse fato que justifico meu mal-estar quanto a esses “títulos de nobreza”. De forma menos incisiva, também tenho me sentido estranho quando me chamam de músico ou artista. Talvez pelas mesmas razões, talvez por razões que ainda desconheça, ou talvez até pela mistura de todas elas. O termo “músico” tem sido constantemente usado quase como um sinônimo de “operário da música”. “Intérprete” me soa estranho, principalmente por passar uma ideia que o indivíduo serve apenas como canal, sem se envolver muito com a “mensagem”. E “artista”… bom, “artista” se insere numa discussão tão ampla que não vou me meter a começa-la agora. Mas vejo muita gente usando “artista” pra designar o músico “dono da banda”. Horrível. Enfim, acabo ficando com o mais amplo, difícil e subjetivo, pois quase ninguém se arrisca naquilo que pouco compreendem (por falta de interesse e envolvimento): mago. _32Posso tocar, posso compor, posso fazer arte. Mas que tudo isso sirva para uma transformação muito mais profunda do que interpretações e terminologias rasas: transformações de ideias e consciências. Como eu já disse, outros antes de mim já disseram e outros depois de mim vão dizer: a arte é magia. De hoje em diante, apenas me refiro a mim mesmo como mago. Não também como mago. Apenas mago. Na mais profunda significação de que “apenas“ é mais do que suficiente.

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