Quanto vale seu cachê?

No documentário The Blues – Fell Like Going Home, de Scorcese, o bluesman Corey Harris viaja por algumas regiões do mundo (África e EUA, mais especificamente) para falar de relações sobre o blues com a música desses lugares, sua origem, contexto social, etc. No início do filme ele diz: “Não consigo imaginar minha vida sem música. Aliás, não consigo imaginar a vida de qualquer pessoa sem música”. Desde então, essa frase me acompanha quase que como um espelho, a me lembrar que a música reflete não só a relação que as pessoas tem com ela, mas também a relação entre as próprias pessoas. Quando comecei a escrever nesse blog, pensei que deveria fazê-lo tendo por base a atitude de relacionar música com a vida ao redor. Depois de alguns segundos (meu pensamento é rápido) me perguntei se isso não era óbvio. Mas rapidamente vi que não, pois as pessoas andam tão ocupadas com tantas coisas que não enxergam o que está bem ali na frente. Vamos ao óbvio. Ontem vi um vídeo perturbador: um cara falava sobre o roubo do seu teclado, que é seu instrumento de trabalho, no valor de R$10.000,00. O que me perturbou nisso tudo não foi apenas saber que alguém teve a coragem de roubar o instrumento de um músico. A relação entre um músico e seu instrumento não é apenas apego material, qualquer músico sabe disso e nem preciso explicar. Mas vamos à lista de pontos perturbadores (não me culpem se não conseguirem dormir à noite). Imaginar que alguém ganha R$50,00 por um show é no mínimo constrangedor. Aqui na Europa, a proposta ultrajante vem como 50 euros. Imaginar que pessoas, do meio musical e fora dele, acham isso normal… é assustador. Não é novidade que a classe dos músicos (usarei esse termo por falta de um mais apropriado) não é unida e, menos ainda, organizada. Também sabemos que os sindicatos dos músicos e/ou essas inscrições na Ordem dos Músicos do Brasil não servem pra nada, além de serem ridículas e insultarem a profissão/atividade. As pessoas deveriam refletir sobre como contribuir para o mundo com a atividade que exercem e como a exercem. Embora a frase de Corey Harris seja verdade, não vejo demonstrações de reconhecimento dessa verdade por meio de respeito aos profissionais dessa área, assim como não vejo respeito por parte daqueles que exploram muitos desses profissionais. Mas também vejo indiferença de que apenas “assiste” o espetáculo musical. No vídeo que citei, o cara diz estar mais revoltado com os músicos que cobram valores ridículos do que com o próprio ladrão. E eu compreendo perfeitamente (uma vez me roubaram uma harmônica e eu fiquei puto!). Enfim, seria interessante que cada um refletisse sobre questões como essas:

É justo que exista uma tabela de valores a serem pagos?Dinheiro.jpg

É justo que alguém, e não o próprio músico/artista estabeleça seu valor?

É justo receber tão pouco, quando se exerce uma profissão utilizando instrumentos tão caros?

É justo ter o valor de um show estabelecido a partir da quantidade de músicos?

É justo que o valor recebido seja com base no que é cobrado na portaria?

É justo esperar por respeito da parte de quem contrata quando não se respeita a própria classe?

Eu ainda acrescentaria a a reflexão sobre o tempo empregado na formação e estudo (por essa lógica, uma graduação como a minha, em Composição e Regência, cuja duração mínima é de 6 anos, me renderia mais que uma graduação em direito, por exemplo). Claro que é tudo muito mais amplo do que parece, embora o problema, em si, seja mesmo simples: respeito mútuo. Já vi muita gente que prefere tocar de graça do que ficar sem tocar. Conheço muita gente que tem outra profissão e exerce música por praze
r, dessa forma, consegue comprar instrumentos que eu nunca pude comprar e não se preocupa com remuneração. Mas a maioria deles não se sente realizada. Mas essa é outra questão. Se tudo isso não fosse uma questão de respeito e reconhecimento, talvez fosse mais fácil argumentar sobre não ser vergonhoso o fato de alguém, em qualquer profissão, receber o que recebe, por exemplo: qualquer jogador famoso de futebol. É muito fácil falar e concordar com o que quer que seja em uma conversa de bar, e isso inclui a ideia difundida de que nenhuma profissão é mais importante que a outra. Mas me responda uma coisa: se todas as profissões tivessem a mesma remuneração, quais delas ainda existiriam? Num mundo onde ainda se ensina música, com instrumentos e pessoas reais, me provoca muita tristeza ver playback admitido como performance. A culpa de toda merda que aí está também cai sobre quem “consome” música (ou algo que dizem ser música). Todos temos merda nas mãos. Talvez a grande privada seja constituída do abismo entre música e mercado da música. Talvez.

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