É difícil fazer música

Dez anos atrás, talvez um pouco mais, decidi lembrar de um dos piores dias da minha vida através de algo bom. Foi um ano muito difícil e quase abandonei o curso de composição na UFBA. Naquela época, eu simplesmente não era compatível com o contexto em que estava e muita coisa ao redor ia muito mal. Depois de passar meses economizando (economizar, nesse caso, é o mesmo que milagre da multiplicação), praticamente sem comer entre as aulas e voltando a pé pra casa, não pude mais esperar e antecipei a compra da minha tão sonhada guitarra semiacústica. De vez em quando eu até ia na loja ver se já tinham comprado. No dia em que decidi me endividar de vez, saí de casa quase no fim da tarde e peguei dois ônibus para chegar até a loja (na volta era um só; o sistema de transporte público em Salvador é uma “merda estranha”, daquelas que você fica sem saber o que comeu no dia anterior). Tirei todo o dinheiro que tinha na agência bancária ao lado a loja (pra não ter que passar no débito e garantir mais um descontinho) e dividi o restante por dois cartões de créditos que tinha na época. Voltei pra casa sorrindo por fora e chorando por dentro com muitas emoções misturadas enquanto me equilibrava naquele ônibus em meio às 50 mil pessoas que se apertavam ali dentro numa intimidade quase matrimonial. Coloquei o case da guitarra atrás do banco do motorista. Acho que nem dormi nessa noite. Eu ainda não tinha muita clara a ideia de que não era o instrumento em si, mas o que ele representava. Pouco tempo antes disso, tinha passado mais de um ano sem nem ter um aparelho de som em casa. Ia pra casa de um amigo que tinha um estúdio em casa e fica lá ouvindo vários discos que muitas vezes ele nem tinha aberto ainda. Foi uma das melhores épocas da minha vida (como acontece com frequência, eu não sabia disso). Acontece que de alguma forma, sempre que dava merda, acontecia algo muito bom em seguida (ou durante, de forma silenciosa), mesmo que eu não percebesse. Da mesma maneira, sempre acabava encontrando uma forma de superar o desânimo com algo que me remetia à minha verdade. Faço o exercício de relembrar tudo isso de vez em quando por uma simples razão: na maioria das vezes, algo que a gente sonha fazer já está sendo feito sem que a gente se dê conta disso. Eu não tinha consciência, mas quando eu passava noites na casa do meu amigo jogando xadrez, tomando Nescauzinho, falando sobre música, eu já vivia a música que sempre quis fazer; adquiria o que expressar e deixava de ser tão vazio artisticamente. Nas universidades, quase sempre, fala-se sobre notas, técnicas instrumentais, orquestrais e compositivas, mas não falam sobre transformar isso em arte. Logicamente, não podem falar do que não sabem. Em geral, falam do que é fácil. Mas o que é fácil não interessa muito. Já professores e músicos que não ouvem música, compositores que nunca fazem música (partitura não é música) e, constantemente, músicos frustrados. É muito mais fácil se perder do que parece. Sempre que me sinto meio perdido, procuro fazer música sem pensar muito e depois tentar descobrir o que eu quis dizer, tendo em vista os limites de dizer o que não se sabe como. Sempre que faço música, sinto-me menos perdido. As adversidades são bênçãos, mas é preciso olhar dessa forma. Há sempre algo a aprender com sofrimento e dificuldades. Reza a lenda que Mark Knopfler nem tinha dinheiro pra palhetas e efeitos de guitarra. Resultado: tem um timbre (quase sempre sem efeito algum) e maneira de tocar (usando os dedos de forma não muito convencional) que é possível saber que é ele quem está tocando após a primeira nota. Wes Montgomery tocava dentro do armário pra não incomodar os vizinhos. Muitos guitarrista de jazz, hoje, imitam a maneira de tocar de Wes, utilizando apenas o polegar, além das melodias em oitavas. Django Reihardt tocava apenas com dois dedos da mão esquerda (os outros dedos ficaram meio tortos e imóveis após um acidente com queimaduras) e seu nome é o primeiro que vem à cabeça quando se fala em jazz cigano. Beethoven morreu totalmente surdo e isso dispensa comentários. Se não consigo imaginar tocar com apenas dois dedos, pensar em um músico surdo é totalmente perturbador. Tem artista que desiste de tudo, tem artista que acha que não tem talento, tem gente que acha que é artista. Dizer que “basta acreditar” ou “é só fazer” é uma grande ilusão. Nada realmente importante é fácil. A vida é muito difícil e a vida artística faz parte da vida. Fazer música é como a vida, algo simples, nada simplório.

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