Estreia mundial de coisa nenhuma

“Nunca se importe com o tamanho da audiência”. Ouvi muito essa frase de gente que queria justificar pra si mesmo o fracasso de público de um show. Também já ouvi muita gente dizer que tem a mesma atitude de palco e sentimento de performance, independente se toca pra milhares de pessoas ou apenas para bêbados ou familiares ou outros músicos da banda ou outros músicos que vão assistir para buscar defeitos ou o pessoal da limpeza que não vê a hora de você acabar de tocar pra poder ir embora. Na verdade, o que importante mesmo, pra mim, não é nem o tamanho da audiência, mas se ela realmente está lá pra prestar atenção, se está interessada. Também já me peguei tocando em casa com a mesma atitude de uma apresentação ao vivo (tirando o pijama ou gorrinho do Peru que uso dentro de casa). Mas se não há público não há performance, há simulação de tal ou um momento de auto busca. Quem já se apresentou pra um público formado de gente que está ali pra absorver tudo o que você tem a “dizer”, sabe que a energia que existe dessa interação é inexplicável (talvez seja explicável, mas tô com preguiça de pensar nisso agora). O ponto a que quero chegar é que muitos alimentam o discurso de não se importar com o público com o ato voluntário de se iludir com sua incapacidade (ou indiferença) de se comunicar. Há muitas questões, eu sei (como a conta a ser paga pelo trabalho). Ao contrário de muita gente, que tem a arte como instrumento para alcançar certos objetivos, muita gente serve de instrumento para a arte. Simplesmente assim. Para os primeiros, o que importa é “falar”. Quando a audiência não importa é porque a mensagem não importa. De alguma maneira, o que realmente importa sempre acaba por ser conhecido (talvez isso inclua seu próprio trabalho ou existência). De qualquer forma, a arte existe independente da performance; performance aqui como uma metáfora para a exposição da manifestação artística. A arte é loucura. No fundo, todo mundo tem algo a dizer e quer ser ouvido. Só que o difícil nisso tudo é conseguir sincronizar tantos elementos. Que sentido há em se alegrar por um concerto cheio, quando não se tem nada a dizer? Que sentido há em obrigar gente a assistir um concerto que não quer? Que sentido há em dizer que uma estreia é mundial, nacional ou putaquepariunal? Que sentido há em interagir com gente ligada pelo desprezo mútuo? Talvez o que falte nos artistas (profissionais) seja verdade, não audiência. Talvez a falta de audiência seja uma bênção. A verdade só é conveniente a quem ela não afeta[1]. Num mundo tão dormente, com arte de plástico e relações superficiais, ser louco talvez seja a única coisa realmente sã.

O Iluminado.jpeg

[1] Roterdã, Erasmo de. 2011. Elogio da Loucura. Trad: Paulo M. Oliveira. Rio de Janeiro: Nova Fronteira.

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