Música ambiente

Com alguma frequência saio de casa na intenção de trabalhar ao computador enquanto tomo um café ou coisa parecida. Como incorporo rapidamente pequenos hábitos à minha rotina geral, era de se esperar (por mim mesmo, claro) que houvesse lugares preferidos para essa atividade. Foi então que me dei conta que meu lugar preferido para trabalhar era o único que não tinha nenhum tipo sequer de música ambiente. Nem uma televisãozinha ligada. Nada. E eu ficava feliz. Foi aí que na minha sublime rotina (que na mesma facilidade com que incorporo um pequeno hábito, mudo tudo inesperadamente) saí num dia em que esse meu lugar preferido estava fechado. Resolvi ir trabalhar em outro café. Mal pude suportar a tal música ambiente. Fiquei pensando: por que diabos as pessoas acham que é sempre necessário haver música ambiente? Comecei a pensar loucamente (como se não bastasse meu desespero) e percebi que além de uma obsessão por música tocando (mesmo sem ninguém dar nenhuma atenção, repito: nenhuma), as músicas são quase sempre as mesmas e num volume desagradavelmente alto. Mais o pior ainda estava por vir: acabei me dando conta de que as rádios tocam sempre as mesmas músicas nos mesmos horários. E os estabelecimentos as mesmas rádios. Por que? Qual a razão disso? Por fim, fui tomado por um pensamento descontrolado sobre música ambiente e comecei a perceber que várias pessoas reclamam da música que toca nos bares, o que obviamente é um atestado (mais do que óbvio) que ninguém vai a lugar nenhum por conta da música mecânica. E olha que nem estou falando sobre os DJ’s que tem como único trabalho fazer playlist. Meu descontrole me fez lembrar de um texto de um cara chamado Anthony Hopkins (não é o ator, é outro Antônio) que basicamente falava de uma banalização da arte através de seu temor em imaginar alguém ouvindo sua música enquanto comia um sanduiche de salsichão. Entendo perfeitamente esse medo, embora eu, particularmente, não me importe muito em ter atenção exclusiva durante um concerto. Observe que ter atenção exclusiva é diferente de ter alguma atenção. Em uma situação de concerto, em que as pessoas saem para confraternizar, conversar sobre coisas da vida (e falar mal dos outros), beber e o caralho, o bom é a diversão. E a música faz parte desse momento de felicidade, que não precisa de normas quanto ao comportamento social das pessoas. Ok, tem gente sem noção que toca em bar e pede para as pessoas ficarem em silêncio, mas, pra mim, isso se resolve com psicanálise. Também entendo como a banalização nos leva a lugares horripilantes por conta da falta de reflexão, conformismo, dentre outros fatores muitas vezes invisíveis, mas que exercem um impacto gigantesco em nossas vidas. E foi também durante minha incapacidade de frear meu pensamento sobre isso que perguntei o que já perguntava há algum tempo: por que a música que se toca nos lugares tem que obedecer um padrão estilístico que em geral segue o pop americano (ou nesses moldes, independente da nacionalidade) ou qualquer coisa repetitiva em looping frenético de chatice galopante? Eu sei que há lugares em que é possível ouvir outros estilos. Mas se não for um bar (ou café, restaurante, budega, etc) temático, a música que vai tocar é essa e não será necessário definir o tema do bar, restaurante ou budega. Mas a standardização não pára aí, vai muito além. A música ambiente geralmente vem acompanhada de vídeo ambiente, que não necessariamente tem a ver com a imagem. Obviamente, tudo está, supostamente (e implicitamente), empregado na missão mercantil de nos manter distraídos. De certa forma, grande parte disso parte do pressuposto de que todo mundo gosta de futebol (no caso de vídeo ambiente) e música pop. Pressuposto sem o menor sentido, se olhar de perto (ou mesmo de longe). Mas voltando à banalização da arte, as consequências disso são gigantescas e assustadoras. A banalização talvez obedeça a um caminho que envolve a repetição, contextualização, facilidade em iniciar e parar, necessidade em se criarem padrões. Poderia passar um dia inteiro exemplificando, se preciso fosse. Não serviria pra nada. Vamos supor que isso que se ouve, banalmente, por aí é (ou ainda é) arte. Vamos supor também que a arte é algo que torna a vida melhor (ou pelo menos suportável). Nesse problema de lógica, o que é mesmo banal, afinal?

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