Lembrando e esquecendo, não necessariamente nessa ordem

Lembro-me do que sentia quando tinha uns 17 anos e alguém se referia a mim como músico. Era como se eu fosse visto como pertencente a um grupo do qual eu realmente tinha orgulho de pertencer. Eu não sabia, mas ainda não me lembrava quem eu era. Todo mundo é muita coisa ao mesmo tempo, então não perca tempo tentando encontrar uma única resposta ou uma única pergunta ou uma única imagem na cabeça ou uma única cena no futuro, passado, presente ou o caralho. Bom, o tempo foi passando eu fui percebendo que as pessoas (é importante lembrar que eu sou uma pessoa) julgam e categorizam tudo. Então tinha músico de jazz, de rock’n’roll, de axé, de samba, clássico, etc. E isso significava muita coisa (pra muita gente). Essas separações não servem pra nada. Todo mundo conhece alguma piadinha sobre músicos. Algumas vezes essas “maravilhas” do humor sadomasoquista contém verdades assustadoramente absurdas. Mas só às vezes. O fato é que o tempo continuou passando (como ele sempre faz) e essas categorizações foram ficando mais complexas. Algumas pessoas faziam distinção entre aquele que era contratado para tocar e o que se apresentava numa posição do tipo “o dono da banda”. Era como se o tal dono da banda (que o nome em geral até dá nome ao grupo) estivesse em um nível acima numa pressuposta hierarquia ilusória. Mas a verdade é que na maioria das vezes eles eram os que menos sabiam de música (às vezes não sabiam era porra nenhuma). Também é verdade que isso me causou muitas vezes bastante incômodo por conta da utilização bizarra da palavra “artista” associada a esses indivíduos. Muitas vezes eles até eram (ou são) artistas. Interessante também é ver vários desses “artistas” fazendo algum outro tipo de arte enquanto tentam fazer música (sem nem chegar perto). Só que, em geral, ser artista (na minha mais sincera e insignificante opinião) é algo mais abrangente. Diga-se de passagem que abrangente não tem nada a ver com melhor ou pior ou hierarquia ridícula. Mas o pior ainda estava por vir, já dizia Murphy com sua lei demoníaca. Conviver com a supervalorização dos diplomas ou a necessidade da utilização deles para conseguir algum emprego é quase insuportável. Vi e vejo muita gente passar a fazer coisas que cada vez mais se parecem menos com música (para os outros e elas próprias). Às vezes é apenas negócio ou política, às vezes medo do futuro. Às vezes é loucura ou estupidez mesmo. E também tinha (e tem) quem acabava (e acaba) se perdendo completamente, ao invés de ir fazer terapia ou estudar, de fato. Alguns músicos não tem a menor ideia de que não são músicos. Outros não imaginam que são músicos geniais. O mesmo com artistas. E o pior? São muitos “piores”. Há muitos professores que não são professores. Assim como comediantes, políticos, médicos, empresários, donas de casa. Saber qual é a coral verdadeira pode determinar o limite entre a vida e a morte. Um grande “pior” é quando é “preciso” (assim mesmo entre aspas porque ainda não encontrei uma situação convincente onde essa palavra fosse insubstituível) acreditar em algo quase impossível de acreditar porque o que realmente importa já nem importante tanto assim, pois já nem sequer faz parte do pensamento presente, ninguém lembra. Ok, esqueça essa frase e lembre-se que também há muitos “melhores”, embora diariamente encontremos pessoas que tentam a todo custo nos convencer do contrário. Tudo depende da perspectiva. Edgar Allan Pöe disse que a principal fonte de erro de todas as investigações humanas reside no risco que corre o entendimento ao subestimar o sobrevalorizar a importância de um objeto, apenas por calcular mal a sua proximidade. Seria redundante dizer que isso é sobre a realidade e a ideia que se tem dela. Acontece que o exemplo já foi dado. Nada é assim estritamente necessário que não possa ser deixado pra trás para dar lugar ao que realmente importa. Parafraseando dois filósofos ao mesmo tempo: torne-se quem você é e procure não se esquecer disso.

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