Música umbilical

 

agua-e-umbigo_2159115.jpgNos últimos meses não tenho tocado tanto quanto gostaria. Isso deve-se, dentre várias outras coisas, ao fato de “ter de fazer” várias outras coisas “igualmente” “importantes”. A essa altura você já deve ter pensado “caralho, lá vem esse cara chato com essas aspas de novo”. É óbvio que eu poderia ter escrito esse exemplo em itálico ou após um travessão. Mas usar as tão pleonásticas, curvadas e flutuantes aspas (“ ”) vai ajudar na ideia a seguir. Na verdade, eu queria falar sobre muitas coisas, e a essa altura você também já deve ter pensado “puta que pariu, que cara prolixo do estopô”. Foda-se, eu escrevo o que eu quiser. Aliás, é justamente nesse “o que eu quiser” que habita o ponto de várias questões que me rodeiam. Qual o limite do “o que eu quiser”, em música, por exemplo? Não sei se é possível me ater ao âmbito puramente musical, no sentido da música em si, desligado das relações sociais. Inclusive, talvez essa tentativa seja um grande problema. E já tenho problemas demais. Até que ponto a vontade motriz atuante naquilo que eu “produzo”, interfere na comunicação com quem, supostamente, vai ouvir? Se eu pensar em música como uma espécie de discurso, onde as pessoas envolvidas estão, supostamente, predispostas a ouvir e compartilhar ideias e reflexões, há algum limite, parâmetro e etiqueta na escolha do vocabulário, na forma como as coisas são ditas, no tempo de fala e numa série de outros aspectos, se observado o fator respeito. Em princípio, só o respeito me interessa. Fodam-se modinhas, clichês, escolas de pensamento, etc. Todo mundo já ouviu dizer que todos somos livres para pensar e formar a nossa própria opinião. Pois é. Acontece que, geralmente, talvez porque quase ninguém fala sobre o direito daqueles que ouvem, a galera acha que todos são obrigados a ouvir tudo o que é dito. Não sei vocês, mas além do direito de opinião, não abro mão do meu direito de indiferença e abstenção. Agora, voltando pra música, de uma forma mais direta, a sensação que eu tenho tido nos últimos anos é a de que pouco importa a relação entre o que vai ser composto e um público verdadeiro e espontâneo. O sistema acadêmico atual alimenta-se, predominantemente, de pessoas que compõem para pessoas do próprio meio acadêmico. Refiro-me à composição de música erudita dita contemporânea. Alguém falou outro dia – citando outro alguém que também não me lembro – que a música acadêmica não tem, por princípio, nada a ver com a música erudita. Vou além e digo que essa tal música acadêmica não tem, por princípio, nada a ver com música. É como uma brincadeira de “amigo secreto” de fim de ano, onde todo mundo sabe que vai ganhar presente de alguém que faz parte daquele círculo. Os presentinhos são dados pelas pessoas de um mesmo círculo, diga-se de passagem, estrito. Detesto “amigo secreto”. Só participei obrigado pela escola ou família. Prefiro presentes espontâneos, sem nenhum compromisso ou interesse. A obrigação tem esse lado broxante. Ao dizer o que digo, faço uso do meu direito de opinião, por mais ridícula e insignificante que seja, lembre-se disso. Enfim. Nós, os compositores, atribuímos prêmios a compositores que se inscrevem nos tais prêmios para compositores, que nós, compositores, criamos. Sim, e daí? Bem, eu queria muito ver gente que realmente gosta do que ouve quando vai a algum concerto de música erudita contemporânea. Queria ver gente reconhecer o que ouve como música. Queria ver músicos buscando partituras dessas músicas por prazer e interesse musical, e não por possibilidade de emprego. Claro que nada disso é absoluto. Vale lembrar que generalizar é isso, é falar da maioria. A questão é muito mais profunda do que o que podemos argumentar em teses e dissertações. E eu prefiro ser mago do que cientista, embora o papel da ciência, ao contrário do que muitos pensam – sabe de nada, inocente –, seja descobrir, e não inventar coisas e provar ao seu próprio modo, seja bastante interessante. Só falo por mim, e eu sinto falta de compromisso com a música, com arte. A maior parte dos compositores está tão obcecada em fazer algo diferente, que essa tal ideia de fazer o que é diferente torna-se completamente igual na cabeça de todos eles. É claro que as pessoas devem fazer o que querem e gostam. Mas tudo na vida tem limite. Responda com sinceridade: você vai aos concertos que vai por qual razão? Você acha mesmo que um compositor pode ser “melhor” que outro? Baseado em quê? O que o público pensa importa? O público importa? O que eu penso sobre isso tudo e a forma como me sinto é problema meu, obviamente. Mas o engraçado é que são ideias tão recorrentes e sentimentos tão comuns a tantas pessoas com quem converso. Pessoas mentem, mas até pra mentira há limite. De alguma forma, o que provoca tudo isso é – minha opinião, mais uma vez – uma faceta da alienação ao redor. Uma alienação “eruditizada”.

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