Entrevista – Lupa Santiago

Em 2015, na etapa final da minha tese de mestrado (Intertextualidade Idiomática como Estruturação do Discurso Composicional, Universidade de Aveiro, Portugal) lembrei-me de uma entrevista que Lupa Santiago, exímio guitarrista de jazz brasileiro, concedeu certa vez a uma revista de guitarra no Brasil alguns anos atrás. Essa lembrança surgiu quando buscava bibliografia relacionada ao tema da minha tese, mas que não estivesse diretamente ligada à música clássica de concerto. Na entrevista, dentre outras coisas, Lupa falava sobre como tinha desenvolvido parte de sua linguagem ao transcrever solos e músicas originalmente compostas para piano. Assim, decidir buscar fontes para minha pesquisa, através de uma nova entrevista, falando diretamente com esse grande guitarrista.

A entrevista a seguir inicia uma série de entrevistas e conversas com músicos e artistas de diversas áreas, buscando ir além da superficialidade e despertar o interesse do leitor para o trabalho que está além do resultado.

Túlio Augusto – De que forma o estudo da linguagem de um determinado instrumento influencia e contribui para o desenvolvimento de uma linguagem pessoal em um outro instrumento?

Lupa Santiago – Outros instrumentos utilizam o range que o seu próprio instrumento não usa, no meu caso a guitarra. Por exemplo, eu quando estudo transcrições de obras para piano, violino, saxofone, percebo que eles utilizam registros e digitações completamente diferentes da guitarra. Isso traz novas ideias. O piano me ajuda muito com o desenvolvimento de acordes; o trompete tem uma digitação muito parecida com a da guitarra. O saxofone já é bem diferente, às vezes algo que parece simples é bastante complicado para transpor para a guitarra. Tudo isso é ótimo porque você acaba desenvolvendo uma maneira diferente de tocar, você desenvolve uma maneira diferente de outros guitarristas que estudam apenas o seu instrumento. Assim você entende a linguagem de outros instrumentos, compreende mais o que você ouve, vê o que está acontecendo e como está acontecendo.

TA – Além de transcrições, de que maneira o estudo da linguagem de um instrumento pode ser feita?

LS – Ajudou muito pra técnica as sonatas e partitas do Bach para violino. Para guitarra ele foi muito generoso e deu pra aproveitar muito tanto pra técnica quanto pra leitura, visualização do instrumento. Estudei também por um livro de transcrições do McCoy Tyner que me ajudou muito a entender a condução das vozes, construção dos acordes.

TA – Quais os processos envolvidos na transcrição (ou tradução de elementos idiomáticos) de frases e discurso de ideias musicais com origem em uma outra linguagem instrumental que atuam sobre aquele que adota essa atitude e como eles ajudam a formar o próprio discurso musical?

LS – Acredito que aplica-se a qualquer instrumento, seja transcrevendo guitarristas, pianistas, saxofonistas, qualquer outro instrumento. É tudo vocabulário que a gente vai aprendendo. É importante fazer transcrições do seu próprio instrumento, sim. Quando eu seleciono no início do ano os músicos cujas músicas eu vou transcrever eu procuro sempre, primeiro: focar em músicos que são mestres naqueles defeitos que eu estou tentando melhorar; segundo, se eu for transcrever quinze solos naquele ano, eu divido mais ou menos em oito guitarristas e sete de outros instrumentos, ou dez guitarristas e cinco de outros instrumentos. Tem solos em que eu aprendo frases. Outros não, mas que aprendo em outros pontos, como suingue, articulação, desenvolvimento do solo, etc. Só de tocar você fica mais próximo da linguagem e onde ele vem. Às vezes transcrevo diminuindo a velocidade com alguns aparelhos e softwares, depois aprendo o solo e em seguida memorizo e toco mais uma semana memorizado. Às vezes tenho alguma coisa pra retirar desse solo, às vezes não, mas depois desse processo ele entra na minha cabeça e pra mim é o bastante. Tem solos que eu tiro algumas frases, tem solos que eu tiro várias e tem solos que não tiro nenhuma, é bem variado. Quando eu aproveito alguma frase eu procuro aplicar nas músicas de maneiras diferentes, ritmos diferentes. Acho bastante salutar, você acabar não pensando na frase, necessariamente. As frases vão gerar vocabulário e isso é bom o bastante, não precisa aplicar a frase exatamente igual. É importante aprender através de solos porque você e o que veio antes, o que veio depois, entende o que estava acontecendo naquele contexto. Se você pega um livro de frases não tem o mesmo efeito.

TA – O que há de benéfico e prejudicial na influência e o que deve se buscar e evitar na influência de outros artistas?

LS – Não me preocupo tanto com isso. Tudo é benéfico, a gente aprende com os nossos heróis, as pessoas que vieram antes, mas acho que a gente tem que aprender de fontes variadas porque se você aprende a partir de um só (artista), a tendência é que você comece a soar como ele. Mesmo que que goste de mais de um ou de outro, ou possa soar um pouco parecido em alguns momentos, não tem problema nenhum. Acho que se deve aprender o máximo possível do máximo de artistas, acho que a influência não prejudica em absolutamente nada. As pessoas que não transcrevem a sua herança tem a tendência de “soar de Marte”, completamente fora. Você tem que soar dentro do estilo. Nada melhor do que aprender todo o estilo profundamente, estudar vários artistas diferentes.

TA – A linguagem pessoal pode e deve se fundamentar na influência a que o artista se submete, seja ela proveniente de outros artistas, gêneros, contexto social, etc?

LS – É inevitável. Acho que deve-se estudar o máximo possível a herança que você estiver interessado. Se você estiver interessado em jazz, por exemplo, é preciso estudar todo o jazz, de todas as épocas e vários artistas diferentes, vários artistas do seu instrumento e vários artistas de outros instrumentos pra poder se aprofundar. É inevitável também que você traga a herança de outros estilos que você possa tocar, mas tudo bem, música é a reprodução do seu dia-a-dia, a arte é isso.

TA – Qual o importância da maneira de como o discurso musical se desenvolve em relação ao seu conteúdo em si?

LS – O discurso se desenvolve de forma natural. De tanto se estudar o vocabulário de outras pessoas, esse vocabulário vai sendo incorporado ao nosso próprio vocabulário e a gente acaba expressando de uma forma pessoal. Mesmo que que você toque a mesma música ou a mesma ideia que outra pessoa tocou, a ocasião vai ser diferente, o público vai ser diferente, o tempo vai ser diferente, a forma de tocar também vai ser diferente. À medida em que você conhece bem outros vocabulários você vai saber aplicar e soar diferente, ao mesmo tempo em que autêntico. Aliás, legítimo, por ter vindo de uma tradição.
TA – Como o intercambio entre linguagens, sejam elas musicais, artísticas ou pessoais pode enriquecer o ensino de música, de modo a criar bases para a formação da individualidade?

LS – Acho toda forma de arte excelente. Essa semana fui a uma exposição do Kandinsky que me inspirou demais. A arte é a ligação entre você e você mesmo, entre você e as outras pessoas, você e o mundo. É como você se comunica, se projeta e contribui pro mundo. Toda forma de arte enriquece, assim como toda forma de comunicação, convivência com as pessoas. Mas é lógico que se seu interesse é música você precisa estar em contato sobretudo com música. Tem gente que vai ao cinema esperando que isso ajude a desenvolver a música. Ajuda, mas há suas limitações. Não adianta passar cinco dias por semana no cinema apenas para enriquecer a música apenas com isso.

Foto: Victor Kobayashi
Foto: Victor Kobayashi

Lupa Santiago fez mestrado no Boston Conservatory e Berklee College of Music, formou-se pela Berklee College of Music e graduou-se pelo Musicians Institute (GIT/Los Angeles). Recebeu, por duas vezes, o prêmio Best of Berklee (1998 e 2000), eleito em 2009 e reeleito em 2014 membro da diretoria do IASJ (International Association of Schools of Jazz). Lupa Santiago é coordenador pedagógico e vice diretor da Faculdade Souza Lima/SP, e autor de três livros (Improvisação Moderna I, Play Along de Métricas Impares e Dicionário de Acordes e Condução de Vozes) lançadas no Brasil (Editora Souza Lima) e na Europa, Ásia e EUA (Advance Music). Com 17 discos gravados, Lupa Santiago tem importantes atuações no cenário do jazz nacional e internacional, marcando presença nas áreas de performance, educação, composição e arranjo.

Site oficial: www.lupasantiago.com

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