A música contemporânea cheira bem?

Uns meses atrás vi uma publicação com um título parecido com “a farsa da arte contemporânea”, ou algo do tipo. Senti um certo cheiro no ar. Não tratava-se especificamente de uma crítica em música mas pode ser aplicada a tal da mesma maneira. Como acontece com qualquer coisa que seja publicada, impressa ou difundida por um meio digital, a maioria das pessoas que lê imediatamente ou concorda com tudo, ou discorda de tudo. Ou vê o autor como um gênio, ou como um imbecil. Esse é um ponto interessante em tudo isso: extremismo. A própria manchete é demasiado taxativa, embora contenha muitas verdades. Exprime, talvez, de uma forma generalizada demais (para alguns) pontos que, de fato, deveriam ser mais discutidos. Mas é como já disse antes, em outros momentos, que generalização não é uma referência a todas as coisas, mas a uma característica comum, recorrente, que serve pra passar uma ideia do que a maior parte é. Seria como dizer que todo brasileiro é malandro só pelo fato de ter proferido a afirmação “brasileiro é malandro”. Mas deixa isso pra lá. Eu realmente acho que a arte contemporânea, de forma generalizada, é uma farsa. Também detesto o termo vanguarda para designar coisas que supostamente estariam à frente do seu tempo. Não quero estar nem à frente nem atrás do meu tempo, quero estar no meu tempo. Sinto-me meio estranho quando alguém se refere a mim como compositor, como um elemento de um conjunto fora do de músico. Na minha cabeça, “compositor” está contido em “músico” (lá ele). Mas os tempos de hoje são bem diferentes dos tempos de outrora. Hoje uma pessoa pode captar uma mijada e chamar de música. Até não me incomodo com isso. O que me incomoda é que coisas assim sejam colocadas de uma forma impositiva em relação ao meu senso de apreciação, como se as pessoas tivessem que aplaudir e não questionar a qualidade dessa arte. Parece ridículo (na verdade é ridículo), mas muita gente tem vergonha de dizer que não gostou de um concerto de música contemporânea, quando assiste. Não raramente, vejo alguém dizer que não gosta de Mozart, que por sinal era, inquestionavelmente, genial. Em geral (a menos que se trate de arte contemporânea), as pessoas não costumam opinar sobre o que elas acham que não sabem. Aliás, se você acha que arte não é qualificável, faz-me pensar que você também não é qualificável. Mas minha opinião, como sempre, não é importante. Sempre que vejo um concerto de música, dita contemporânea, tenho a sensação de falta de parâmetros. Antes que seja mal interpretado, deixe-me dizer: eu gosto de música contemporânea. Até porque eu não só “faço” música contemporânea, como “faço” música. Mas em praticamente todos os concertos há falta de parâmetros e não se estabelece nenhum tipo de comunicação com o público. Música pode ser vista de várias formas, mas isso não faz com que a música deixe de ser uma linguagem e, potencialmente, uma forma de magia. Acho ótimo que as pessoas se interessem cada vez mais por tudo quanto é tipo de repertório, mas é preciso dizer alguma coisa com isso. A tal publicação que falei foi muito mal interpretada por ser julgada pela manchete. Como quase sempre, os valores são atribuídos de forma superficial. Há muita gente que fala sobre música e, supostamente, faz música que não ideia do que é música. Eu entendo que o tempo é relativo e que as coisas mudam, mas a natureza de certas coisas é um pouco menos variável. Até um passado razoavelmente recente, apenas após alcançar um certo nível de maturidade, é que o compositor optava por escrever para quarteto de cordas. Hoje, alguns alunos escrevem para quarteto de cordas no primeiro semestre da graduação. Os alunos que ingressam no curso superior são cada vez mais verdes; os professores que os orientam são esses mesmos alunos, numa geração anterior, sujeita a essas mesmas forças do mal; os professores de amanhã serão, em grande número, a mesma superficialidade. Eu realmente acho que as pessoas podem dizer o que quiserem. Não seria um mago se não pensasse isso. Acontece que o que o as pessoas dizem, diz muito mais do que o significado das palavras: expõe sua própria mediocridade ou genialidade. Como pra mim a palavra genialidade dificilmente é aplicável, logo, há muito mais dito pelas entrelinhas do que pelo discurso, em si. Grande parte dos compositores de hoje, que se colocam num espaço delimitado, separados dos músicos e (infelizmente) dos artistas, não tem a menor ideia do que estão fazendo. São, talvez, piores que aqueles cantores que cantam sem ter ideia do que a letra diz. Mas calma, há muita coisa boa sendo feita. Só é preciso procurar (muito, muito mesmo, exaustivamente, com uma paciência quase infinita). Debussy dizia que levava dois meses pra se decidir sobre um acorde. Esse era seu tempo, sua maneira, exemplificada de um jeito metafórico. Da mesma forma, músicos como Joe Pass, poderiam usar um acorde diferente a cada vez que a mesma música fosse tocada. A questão não é o tempo em si, mas o tempo preciso para alcançar alguma profundida, uma profundidade mínima, suficiente para sair do ridículo, do medíocre e insignificante. Sobre farsa, eu entendo que seja tudo aquilo que não é o que se apresenta ser. Então, vamos mudar um pouco as coisas, de arte contemporânea, para simplesmente arte. A arte (no sentido mais amplo que se puder imaginar) que tem sido apresentada é uma farsa, não tem nada a ver com arte. Conheço alguém que diz que quando você não sente o cheiro da merda, é porque já faz parte dela. Acho que isso explica quase tudo.

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