Formas dos tempos

Em meio a tantas coisas que tenho pra fazer, assim como todas as pessoas sempre tem (você também tem, não tem?), há minha tese de mestrado. Tese essa que poderia ter saído há mais ou menos uns cinco anos, mas que por circunstâncias da vida acabou sendo abandonada. Nunca tive dúvidas de que aquele não era o momento ideal (se é que existe isso de momento ideal), assim como tive certeza, no momento em que terminei minha graduação em composição (de seis anos seguidos), que estava começando a ficar “pronto” para começar essa mesma graduação. E eu ainda não era mago. Mas e daí, isso tem a ver com quê? Várias coisas (como sempre). Mas só vou falar de duas. A primeira é a relação com o tempo. Temos, em geral, uma relação autodestrutiva com tempo. Outro dia conversei com meus alunos sobre um tipo de relação com o tempo, exemplificada pelos prazos de trabalhos a serem entregues. Obviamente, apenas uma pequena parte da mensagem foi captada (ou nem isso). Mas essa pequena parte talvez (e assim espero) possa conduzi-los a um caminho (interessante) de autoconhecimento e aprendizado. Seis anos numa graduação na verdade não são seis anos. Podem ser muito mais ou muito menos, e ainda ter seu tempo ressignificado após algum tempo (é um pequeno trocadilho, eu sei, mas não pude evitar). Quando se passa vários anos numa universidade, o que mais importa não é o conteúdo programático das disciplinas, em si. Na minha opinião, a maioria dos cursos nem sequer tem um quadro aceitável, do ponto de vista da qualidade, de professores preparados. A maior parte dos cursos da maior parte das faculdades serve apenas para fornecer um papel atestando que alguém está credenciado a exercer uma função. Alguém de merda a exercer uma função. É meio assustador, mas a maioria das pessoas não se dá conta de que estamos cercados de incompetentes. Cercados de gente que se acha capaz e merecedor apenas por ter passado algum tempo em uma universidade ou a exercer uma determinada tarefa. Tempo perdido. Uma ideia sobre o tempo parecida com uma ideia primária sobre tamanho. Um dia desses um aluno meu reclamou sobre o preço pago num livro que, no seu ponto de vista, tinha poucas páginas. Não que o valor das coisas possa ser medido por dinheiro, mas nesse caso dá pra ilustrar mais ou menos o raciocínio. Bom, disse a ele que tem uns diamantes bem pequenininhos que valem alguns milhões de euros e eu não me importava nem um pouco que fossem encontrados no quintal de lá de casa. As melhores coisas que aprendi na universidade, ou seja, as coisas que, de fato, fizeram diferença, foram aprendidas fora do conteúdo programático, fora dos esquemas congelados de ensino. Foram a partir de pessoas que usaram seu tempo para mudar as próprias vidas e inspirar outras pessoas a fazerem o mesmo. Ok, talvez seja um tanto cruel e injusto, visto que passei por uma das melhores universidades do país numa área específica (me gabo mermo). O tempo inteiro ouço perguntas como “quanto tempo vai levar pra eu me formar?”, “em quanto tempo estarei trabalhando com isso?”, “em quanto tempo estarei tocando rápido?”, “em quanto tempo você aprendeu a tocar?”, “quando vou conseguir fazer isso ou aquilo?”. A verdade é que essas perguntas são perguntas que aprisionam. Uma vez vi em algum filme um discípulo perguntar ao mestre de Kung Fu quanto tempo ele levaria para dominar uma determinada arma. A resposta foi: às vezes pode levar uma vida inteira. Quando você não entrega seu tempo a algo que realmente faz sentido, você perde tempo; tempo que poderia dar sentido a vidas, a começar pela sua própria. Tudo tem seu tempo e seu próprio ritmo. Em meio a isso tudo as pessoas buscam formas para aproveitar (e perder) tempo. Fórmulas e modelos para seu próprio modelo. Mas há coisas que não entram na minha cabeça. Coisas como a ideia de que há coisas jamais inventadas que não dialogam com o que já existe e que podem ser encontradas se buscadas adequadamente. Pessoas que pensam assim sempre pensam que estarão entre as escolhidas. Que burros, dá zero pra eles. A segunda coisa sobre a qual queria falar era justamente forma. Nas artes marciais, como Judo e Karate, existem os katas, que significam nada menos que “formas”. Essas formas são ensinadas durante algum tempo (na verdade são praticadas a vida toda) e a partir delas o eterno estudante consegue desenvolver seu próprio estilo, sua própria maneira. Mas não do nada. O exaustivo esforço em negar formas consagradas (às vezes sagradas também) e modelos que se estabeleceram no tempo levam a um modelo baseado na repetição da atitude de negação. Opto por pensar que a maneira como as coisas acontecem, de forma boa e ruim, está relacionada com um caminho de aprendizado conjunto e constante. O judoka que não presta atenção às formas jamais vai entender o Judo de fato, embora muitas vezes pratique uma infinidade de outras formas, em diferentes âmbitos, sem se dar conta. O compositor erudito que acha que tudo que veio antes de Schöenberg ou dos neoclássicos é uma merda, apenas por se considerar um “contemporâneo”, se adequa a um modelo mesquinho, frágil e autodestrutivo no contexto da composição musical (e da vida, enquanto pessoa), não contribui em nada, a não ser por se tornar um exemplo do que não ser. A pessoa que acha que pode compor (pense bem sobre esse conceito) qualquer coisa e deve ser reverenciada por uma posição autoproclamada de pseudoengenhosidade, incapaz de encadear uma simples progressão harmônica ou um contraponto em primeira espécie de 8 compassos, pra mim é tão ridícula e ainda mais caricata que o pensamento de que no Brasil todo mundo samba o dia todo e toma caipirinha na praia enquanto vê os macacos passando pelo outro lado rua. Não existe uma maneira para fazer o que quer que seja. Existem maneiras, sempre. A vida é dinâmica. Entenda por vida a sua própria, mas também tudo que imaginamos saber sobre a vida de todos os que aqui estão, estarão e já se foram. Muita coisa precisa ser mudada. E será. Haverá o momento para isso. Lembro de uma vez em que conversava com um (mago) professor e ele me dizia que tinha sido aluno de fulano, que foi aluno de ciclano, que foi aluno de sei lá quem, que estudou com alguém lá não sei de onde, e que aprendeu música com Beethoven. Ele queira mostrar como as coisas são simples. Não posso desprezar todo esse tempo e influência, toda uma relação de contribuição para o mundo e consciência coletiva, em função de um narcisismo guiado pela exclusividade e limitado a um curtissississíssimo espaço de tempo. Bem, isso é apenas um blog e eu nem sequer preciso ser coerente (desculpa perfeita), mas vou terminar com algo de T. S Elyot: “(…) O que acontece é uma contínua entrega de si mesmo, como o que se é no momento, a algo mais valioso. O progresso de um artista é um contínuo auto-sacrifício, uma contínua extinção de personalidade.”

Formas e tempos

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