Monstro lutador, monstro musical

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Não sou o primeiro nem serei o último a falar das semelhanças ou afinidades de elementos e atitudes entre música e artes marciais. É igualmente comum encontrar pessoas que dizem, por exemplo, “o Judo é minha vida” quanto “música é tudo pra mim”. A verdade é que sabemos tão pouco da vida e do quanto a vida é extraordinária que limitamos nossa visão de algo tão magnífico a uma visão igualmente limitada e pequena sobre coisas como música e artes marciais. Se você observou bem, vai perceber que escrevo “Judo” com letras maiúsculas. E se você pensou que isso está relacionado a algo sagrado é porque pensou certo. Não preciso argumentar sobre a forma como o Judo se insere no papel de dar sentido e direção à vida, ou como o caminho suave deveria ser quase onipresente. Acontece o mesmo com a música, eu sei. Se você observou bem, também percebeu que escrevo “música” com letras minúsculas. Não que a música seja algo menos sagrado, mas a verdade é que a música é manifestada de uma maneira diferente do Judo (Judo como metáfora para artes marciais) e aqui apresento como algo mais genérico. Cada pessoa pode ter sua própria visão sobre todas as coisas (e seria ótimo que tivesse), o que não impede que haja uma essência absoluta sobre essas mesmas coisas. Não acredito numa relativização integral de tudo que existe. Mas também não vou me aprofundar nisso agora e talvez nunca o faça publicamente, não vem ao caso. A abordagem que pretendo é sobre um outro aspecto, e sobre um tipo mais específico de música. Nos katas, que são aquelas formas que simulam uma luta e contém a base de todas ou muitas das técnicas do Judo ou do Karate, por exemplo, há um detalhe que determina a razão da arte existir: todos os katas começam com um movimento de defesa. Não há atitude ofensiva anterior a outra atitude ofensiva, o que nos leva a concluir que a atitude que importa é a defensiva. Outro detalhe: a arte não existe sem o outro. Tirando o foco da relação ataque X defesa, e concentrando em ação X reação, ou pergunta X resposta, chego ao ponto em que queria chegar: a chamada música erudita contemporânea é, na maioria das vezes, um monstro. Pior do que isso, um monstro alienador, criatura transformadora de engenharia solitária em sons impossíveis de compreender. Eu, na minha insignificante existência de meros e desprezíveis anos de convivência com esse mundo, e na minha petulância de fazer declarações longas e parciais, não vejo o menor sentido em muita coisa apresentada como composição e na atitude fake compositiva de alguns seres autoproclamados compositores. Mesmo se eu não fosse um mago eu poderia falar o que quisesse, mas é justamente por sê-lo que não posso deixar de dizer. Não se pode empurrar coisas goela abaixo e simplesmente dizer que isso é música. Não se pode ignorar o interesse das pessoas ao pretender compor. Não se pode subestimar o entendimento do público. Enquanto se ensinam formas para compor, esquecem de observar que nada disso importa se não houver envolvimento por parte daqueles que irão ouvir. Se é que irão ouvir. Não me sinto necessariamente incomodado, mas decepcionado. Qual o sentido de compor sem saber tocar ou ter tocado um instrumento minimamente bem? Qual o sentido de compor sem se preocupar com quem vai ouvir e considerar sua opinião? Já ouvi compositores dizerem que se enveredaram pela música eletrônica por falta de intérpretes. Como seria isso possível? A resposta é que pessoas assim não foram capazes de cativar intérpretes ou despertar o interesse para sua suposta música. É preciso respeitar quem faz música eletrônica séria antes de dizer uma merda dessas. Há muita preocupação voltada para valores de ingresso ou quanto vão pagar por um concurso ganho. Ironicamente, falta harmonia em grande parte da música feita hoje. Qual o sentido que há em não usar a música para dizer nada? Não há. Você pode até não dizer nada, mas esse nada diz muito sobre você. Qual o sentido de fazer uma música que ninguém consegue tocar? Qual o sentido de fazer uma música que ninguém quer tocar? Qual o sentido que há em ser brasileiro, morar no Brasil, ter amigos no Brasil, e ter apenas títulos em inglês? O sentido de tentar fazer com que as coisas pareçam não ter ou não tenham sentido é esconder de si mesmo que você não tem ideia do que está fazendo. Já dizia o Caetano, o mesmo que disse “Como você é burro, cara! Eu nem consigo entender o que você está falando porque você fala de uma maneira tão burra!”, que “Se não canta, se não dança não é popular. Se não afina nem tintina, não tarantina”. Tem gente que acha que fez uma grande obra, quando na verdade foi o intérprete que concedeu a essa pessoa o status de “fazedor” de música. Entretanto, o outro lado é o mais comum, o de gente que, apoiada na austeridade do papel (tanto a partitura quanto o título), ilusoriamente cria algo que de musical não tem nada, e culpa o pobre do intérprete que quebrou a cabeça pra tentar interpretar o ininterpretável. A essa altura só me resta um último paralelo: a maior batalha que alguém pode enfrentar é travada dentro de si mesmo, contra si mesmo; música só pode ser música se vier de dentro de si mesmo também.

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