O silêncio de Roberto

Há um tempo que penso em como poderia aplicar alguns fundamentos do Judo nas aulas com meus alunos de música. Mas foi conversando com Roberto que minha mente se abriu e pude ver o que faltava. E há uma explicação prática para tal fato: Roberto, além de músico e professor, é praticante de Aikido. Falo abertamente e sem nenhum pudor sobre as consequências negativas que a abordagem demasiada esportiva e competitiva observada no Judo atual trazem para aqueles que buscam o que considero ser o verdadeiro Judo, literalmente um caminho suave, ampliado a todos os aspectos da vida. Não vejo relação direta entre a forma do ensino atual que predomina, tanto no judô como nas universidades, com o Jita Kyoei (benefícios mútuos a partir do aperfeiçoamento individual). Além disso, o significado de Seyrioko Zenyo vai muito além da eficiência em competições, que diga-se de passagem não tem nada a ver com combate real. E sim, é ridículo pensar que atletas são intrinsecamente lutadores ou guerreiros. Muito mais ridícula a ideia difundida de que MMA é arte marcial e definitivamente desrespeitoso o uso da palavra samurai associada aos atletas em geral ou praticantes de supostas artes marciais. Não vou me aprofundar nessa questão agora. Voltando ao assunto, o que passou despercebido foi o fato de o mokuso (黙想), geralmente ocorrido no início da aula/treino/sessão/prática do Aikido e no final da de Judo (cada vez menos praticado no Judo, a ponto de muitos alunos e praticantes nem sequer saberem o que é) tem um significado e poder muito além de concentração, autorreflexão e silêncio. O silêncio era a chave que faltava no meu entendimento. Não o silêncio como ausência de som ou sinônimo de vazio, mas o silêncio real. O silêncio como síntese de todas as coisas. O silêncio como o momento onde a concentração, a autorreflexão, o entendimento, a autoconsciência e a verdade se convergem em um momento. Um conceito tão simples e complexo, fácil e difícil de ser compreendido num segundo ou numa vida inteira. 3 macacos.jpgDa mesma forma, na prática musical o silêncio é
ensinado pela maioria desatenta como sendo um momento onde nada acontece, pausas a serem contadas, o segundo antes de uma entrada, o instante ants da suposta música começar ou acabar. Mas é como dizem: pausa também é música. Não foi à toa que o envolvimento com Zen levou (ou influenciou) o John Cage a compor 4’33”. O silêncio é algo tão presente e tão sutil que nos esquecemos facilmente. Aliás, o óbvio é muito mais difícil de perceber. E como escreveu Saint-Exupéry, “o essencial é invisível aos olhos”. Temos andado distraídos e voluntariamente empenhados em nos distrair, imersos numa ideia ilusória de conexão com as coisas e mundo à nossa volta. Começarei a adotar o mokuso como prática inicial nas minhas aulas de música e início de qualquer prática em grupo. Essa é apenas parte da minha obrigação e responsabilidade na condição de professor: ensinar a buscar consciência enquanto procuro fazer o mesmo. O silêncio, no seu real significado, no Judo, no Aikido, na música e na vida, conecta as pessoas às outras e a si mesmas. Obrigado pela conversa, Roberto. Mokuso.

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