Jazz: Improvisação como conversação

Quem me conhece sabe que o gênero musical que mais ouço e aprecio é jazz, embora alguns me conheçam pelo rock’n’roll, outros pela música erudita ou pela minha gaita bluseira, ou até pelo samba chula. Na verdade, desde a primeira vez que eu ouvi uma harmônica eu disse a mim mesmo: “eu quero tocar isso”. Muita gente coloca blues e jazz num mesmo conjunto, como se fossem a mesma coisa. Não são, obviamente. E há tantas diferenças que me dá preguiça só de pensar em enumerar. Podemos falar sobre isso depois, se for o caso, mas esse não é o ponto. Nas palavras do saxofonista David O’Higgins: “O jazz é como barata: você nunca pode se livrar dele. Você não pode matá-lo, porque o jazz é uma vocação das pessoas que tocam”. Tem sido assim comigo. Agora mesmo ouço o Chet Baker dizer “My Buddy”. E por conta dessa conversa que o jazz tem todos os dias comigo, resolvi postar aqui uma recensão sobre de um capítulo de um livro bastante conhecido. Aí vai:

O capítulo três de Saying Something: Jazz Improvisation and Interaction (Ingrid Monson), percorre a discussão não somente sobre a improvisação no jazz, mas concentra-se na abordagem de diferentes visões sobre os processos envolvidos. Ingrid Monson faz referência a Berliner (Thinking in Jazz 1994) para introduzir a importância da formação – do ponto de vista da construção do papel atuante – do músico de jazz em um meio musical dinâmico, sujeito a constantes transformações, no qual essa identidade musical é construída pela interação entre o indivíduo e o meio musical. Embora a autora aponte aspectos da utilização inapropriada de ferramentas ocidentais para análise e estruturação musical, o paralelo entre a abordagem ocidental e prática musical como parte de um complexo cultural espontâneo, baseado na aprendizagem interativa, é contextualizado pela ilustração dos processos envolvidos na comunicação.
A frustração existente na tentativa de se traduzirem experiências musicais em palavras é denominada linguocentric predicament por Charles Seeger (1977): não importa quão elegantemente um autor escreva, haverá sempre algo fundamentalmente impossível de ser traduzido na experiência musical. Na visão de Seeger, enquanto a linguagem enfatiza a atuação do intelecto na transmissão da realidade, a música foca no sentimento. Steven Feld vê a música como “um tipo especial de atividade cheia de sentimento”. Entretanto, Ingrid Monson procura ir além da definição – ou exatidão – da capacidade comunicativa existente na atividade musical. Os processos envolvidos na comunicação – muitas vezes tentativa de comunicação – chamam mais atenção pela analogia à comunicação em si. A importância da linguagem figurativa – metáfora, metonímia, sinédoque, ironia – tanto no contexto musical quanto no ato comunicativo por uso de palavras pressupõe o envolvimento do ouvinte não apenas em um papel passivo, de receptor, mas como participante que interage a partir de suas ideias e sentimentos implícitos, relacionando com a mensagem – musical ou não. A linguagem musical em jazz aparece como a construção mútua de uma narrativa que envolve processos e temas comuns aos comunicadores. Esse intercâmbio de ideias não é caracterizado pela sucessão abstrata de sons e ritmos, é desenvolvida pela ligação de múltiplas personalidade num mesmo discurso. Momentos de interação rítmica podem ser vistos como busca pelo espaço musical. A comunicação existente na improvisação em jazz, no momento da performance, pode então ter muitos aspectos comuns a um texto, composto a partir da interação direta entre várias ideias e a relação – consequências – entre elas. Uma metáfora da conversação traz aspectos muito significativos sobre o processo musical. A definição de “conversa” como desenvolvimento de um discurso entre um ou mais participantes que alternam livremente entre si, ligados pela mesma temática, é também uma descrição – ou definição –ampla sobre a interação da performance musical em jazz.
Ao mesmo tempo em que há um ideia sobre o que será exposto, a comunicação se desenvolve pela interação do discurso temático apresentado simultânea e/ou anteriormente, onde cada músico tem alguma responsabilidade no contexto no qual estão inseridos, construindo um caminho comum onde as ligações são estabelecidas pelos participantes para os participantes. Desta forma, o papel desempenhado pelo solista, de oferecer temática, material ou “mote”, é comumente encontrado em grupos de culturas africanas. No contexto africano, diversas vezes o papel de manter uma estrutura rítmica, por exemplo, assegurando o andamento e estruturas básicas da “peça” musical é desempenhado por uma sessão fixa de percussão, onde os padrões são mantidos durante praticamente todo o percurso. Uma outra sessão interage a partir de variações e complementações. Esse tipo de relação e comportamento pode facilmente ser interpretado, por analogia, como uma conversação, movida por uma temática comum onde os “conversadores” perguntam, respondem ou desenvolvem o assunto. É claro que num grupo de jazz os instrumentos executam papéis diferentes, mas igualmente inseridos numa mesma conversa, onde um assunto se entrelaça a vários outros temas – secundários ou igualmente importantes – que ocorrem simultaneamente numa mesma narrativa. Seria então a narrativa o ponto principal da questão? Certamente a capacidade comunicativa que um grupo – incluindo a capacidade de comunicação entre os integrantes – exerce num âmbito social de conversação é percebida como êxito na função musical, êxito este que aparece em muitas outras discussões como qualidade da performance, habilidades musicas em improvisação, coerência do discurso musical, etc. Assim como na comunicação através da linguagem falada ou escrita, os meios empregados na tarefa de estabelecer um vínculo comunicativo podem influenciar – ou mesmo definir – os envolvidos sobre a importância da mensagem, além de despertar o interesse e contribuir para as bases e continuidade de uma relação.

Referências Bibliográficas

BERLINER, Paul F. 1994. Thinking in Jazz: The Infinite Art of Improvisation. Chicago: University of Chicago Press.
FELD, Steven, and Bambi B. Schieffelin. 1982. “Hard Words: A Functional Bias for Kaluli Discourse: In Analyzing Discourse: Text and Talk, edited by Deborah Tannen, 350-70. Washington, D.C.: Georgetown University Press.
MONSON, Ingrid. 1996. Saying something : jazz improvisation and interaction. Chicago: University of Chicago Press.
SEEGER, Charles. 1977. Studies in Musicology 1935-1975. Berkeley and Los Angeles:University of California Press.

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