Facebook nosso de cada dia

É importante de dizer que você, que nesse momento lê isso, pode se sentir ofendido em algum momento. Entretanto, só vai se sentir ofendido aquele que realmente for incapaz de admitir a sua própria ridícula condição de fragilidade nesse mundo e de aceitar a pluralidade de ideias (ainda que estúpidas), tornando-se, assim, um indivíduo ainda mais insignificante, desta forma, não sendo digno da minha consideração, o que pra você não deve pesar, ter a menor importância e muito menos causar qualquer incômodo ou indignação. Agora que as insignificâncias foram apresentadas, vamos ao assunto. Quem por acaso viu que compartilhei um link de texto de uma jornalista que dizia que ia ficar (ou ficou) 15 dias sem curtir nada no Facebook sabe que eu tenho cumprido minha declaração de fazer o mesmo (a não ser uma curtidinha ou outra em alguma foto ou post do Amojito, afinal, não poderia deixar de fazê-lo). O fato é que segurar o dedo pra não sair por aí curtindo uma frase que você já conhece colocada numa moldura virtual ou imagem falsa da natureza, o vídeo de um gordinho caindo numa poça d’água, desafio de balde gelo da puta que pariu, cachorrinho fazendo cara de culpa por ter feito merda, etc, etc, etc, tem efeitos muito maiores que o impacto no seu feed. Minha percepção parece mais aguçada em relação a quanto nós temos nos tornado mais fúteis e vomitadores de ódio, debatedores simplistas de questões sérias, encorajadores de preconceitos socialmente aceitos (ou acordados). Ok, antes que digam que eu sou uma pessoa mal amada, mal comida, que não faz sexo ou infeliz, saibam que não, sou simplesmente um mago ranzinza que não perde uma oportunidade sequer de comemorar a vida. E não é possível que a vida seja tão desinteressante ao ponto de eu escolher ir a um restaurante, sentar numa mesa com minha namorada, e pegar o telefone pra olhar o Facebook e/ou tirar foto da comida que eu vou comer. Mas eu já fiz isso inúmeras vezes (sorry, honey <3), não necessariamente pra olhar meu feed, e sem a parte da foto da comida, claro, pois no meu caso a doença não estava num estágio tão avançado. Mas do que eu estou falando? Estou falando de um processo contínuo de perda da consciência, um processo de autossabotagem onde o único responsável é o indivíduo atuante, entorpecimento por uma realidade ilusória onde bom mesmo é ter milhares de opções. Como disse a maga viking Marilia Coutinho (http://mariliacoutinho.com/) sobre um outro assunto (vou pegar a fala emprestada por achar que quase tudo que ela fala pode ser transformada numa oração – os “crente” pira), “o livre arbítrio é soberano”. Eu, assim como ela, não lamento. Mas me irrito, confesso. Afinal, sou rabugento. Queixar-me dessas merdas faz parte da minha natureza. Quando optamos por autoconsciência e atitudes positivas, os resultados são sempre positivos. Sempre. As coisas ruins não resultam das atitudes positivas, resultam de qualquer outra coisa. A vida é complexa e dinâmica. Porque o fracasso só é fracasso quando desistimos em seguida. Mediocridade só é mediocridade se é seguida de comodismo. Autossabotagem só é autossabotagem se é acompanhada de aceitação. Admito que as redes sociais tem um papel, que pode vir a ser importante, de conectar as pessoas a assuntos e acontecimentos diversos, por exemplo. Outro dia encontrei vários amigos de infância. Seria praticamente impossível manter algum contato com eles se não fosse o Facebook. Ao mesmo tempo pergunto-me: mantenho mesmo contato com eles? Os desencontros também fazem parte da vida, as pessoas seguem seu caminho. Mas voltando: um conhecimento superficial sobre muitos assuntos pode facilmente transformar qualquer pessoa num idiota em incontáveis âmbitos. Sempre tive a certeza de que não tenho mil e sei lá quantos amigos. Tenho muitos amigos, sim, porque sou uma pessoa de sorte, pois mesmo sendo chato pra caralho (pra caralho!) tem muita gente mais louca do que eu (não tenho tanta certeza) ao meu redor. Mas a maioria das pessoas desconhece que amigos de Facebook não são necessariamente amigos reais, e mais importante do que isso, desconhecem o fato de que uma pessoa nunca sabe exatamente quais são seus amigos de verdade. E o que amigos tem a ver com isso tudo? Simples: esse é só mais um aspecto tomado com total superficialidade. Quase tão superficial quanto a suposta vida que vemos no Facebook. Tudo bem, é legal de vez em quando descontrair e permitir-se falar bobagens, procrastinar, dormir até tarde. Talvez esse seja o real sentido de divagar no Facebook. Mas coisas do tipo “#partiutreino”, foto de comida, “desafio do balde gelo”, tentativa de conversão religiosa, busca impetuosa pelo argumento que vai definitivamente mudar a opinião do capeta, foto de si mesmo dormindo, são a prova de que o ser humano é realmente um animal diferente dos outros e me faz ter vontade de ser uma tartaruga marinha, gafanhoto, urubu ou elefante. Claro que vou continuar postando coisas no Facebook. Essas minhas palavras tolas certamente estarão rolando por lá. Mas o que seria de mim se minha música se resumisse a esse público? Ou pior que isso, o que seria de mim se dependesse desse público para fazer música ou compartilhar o que chamo de vida? O que seria de mim se tudo que eu quisesse fazer se relacionasse apenas com música? O que seria de mim se acreditasse que algo só existe se está no Facebook? Agora substitua a palavra “Facebook” por qualquer outra palavra: dá no mesmo.

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