Instrutor eu, instrutor você

Essa semana vi várias coisas por aí pela internet ou em conversas que me chamaram a atenção para uma questão que já venho observando há muito tempo. Qual a necessidade de nos formarmos instrutores? Existe essa necessidade nisso? O mundo precisa desses instrutores? Observe que não usei a palavra “professor”, embora até pudesse ser usada, em alguns casos. Mas como eu vivo dizendo, ser professor é muito mais que passar por um curso de formação qualquer, muito mais que ter um diploma ou um emprego. Enfim, não vou falar muito sobre a importância e papel do professor (real professor) agora porque não é exatamente sobre o que quero falar. E há muito o que dizer sobre isso. Como eu ia dizendo, venho percebendo há um bom tempo como o real significado de uma arte, atividade, esporte, e muitos et cetera, vem sendo deixados de lado por conta da corrida pelo dinheiro, emprego, trabalho. “O trabalho dignifica o homem”. Ok, me bata um abacate. É o mesmo que incentivar a leitura por incentivar, sem dar a menor atenção ao conteúdo. Vou dar um exemplo prático. Uns anos atrás uma (até mais de uma) pessoa que conheço entrou para a então chamada “Universidade de Yôga”, aquela do “mestre” DeRose, que coloca assento circunflexo em “yoga”. Eu prefiro chamar de “ioga” mesmo, mas isso não tem importância agora. Lembro que na época eu pensei “Universidade? Como assim?”. Simples assim. Não é raro o fato de muitas pessoas entrarem pra ioga fugindo de vários problemas cotidianos, como estresse, vida agitada, cuidados com o corpo. Ou seja, pelos motivos errados, se é que se pode dizer que buscar melhorar a vida é um motivo errado. Mas acho que deu pra entender, né? Menos demagogia, por favor. Então, logo que começa a frequentar essa tal universidade (a palavra “universidade” tem sido empregada com tamanho desleixo e desrespeito que seu real significado assustaria o ignorante pelo peso da responsabilidade intrínseca que há nela) o cara é avisado que em 3 ou 4 ou 5 anos (o tempo não importa) será um instrutor. Que legal. Legal o caralho. Que mania essa de fazer com que tudo seja um curso de formação, como se formar instrutores fosse a única coisa de valor. Mas ainda nesse meu exemplo da tal “Universidade de Yoga”, que agora nem sequer usa o termo “yôga” e passou a ser “Método DeRose”, tem como dono (sim, dono) o tal “mestre” DeRose (nem é preciso lembrar o significado da palavra “mestre”, né?). Lembro que uma das coisas mais ridículas que ouvi sobre esse cara foi que ele tinha recebido os ensinamentos do ioga pré-clássico de um espírito, que não lembro o nome. Nada contra o espírito. Mas você quer me dizer que um cara que não teve um mestre simplesmente é “iluminado”, tal qual Buda, e passa a ter um conhecimento milenar antes esquecido, perdido no passado? Ok, cada um pensa o que quiser, mas esse DeRose pra mim fere, de uma só vez, a essência do significado de “universidade”, “ioga” e “mestre”. Esqueci de dizer: ele usa essa coisa do espírito pra “justificar” o tal posto que ocupa, mas não faz nenhuma ligação entre o que ensina e qualquer coisa espiritual. Claro, se não é ioga. Tudo isso pra dizer o que? Pra dizer que sob qualquer justificativa as pessoas se apropriam de conhecimentos realmente sérios e importantes pra se beneficiar, transformando em marca, meios de ganhar dinheiro, além de encontrar uma forma de segurar os alunos. As pessoas tem se deixado convencer de que tudo tem que ter um objetivo rápido e claro, funcional, “o que eu vou fazer com isso?”, “o que eu ganho com isso?”. Se você é do tipo de pessoa que se pergunta pra que serve algoritmo, filosofia, matemática, dança, aprender a tocar um instrumento ou o que quer que seja, buscando um efeito imediato ou forma de aplicar isso num emprego, saiba que você não usa nem 0,000003% daqueles 10% da sua capacidade cerebral que dizem que a gente usa. As empresas aprenderam que quando dizem ao aluno de qualquer coisa que eles vão sair de lá instrutores, esses alunos pensam duas vezes antes de trancar ou desistir do curso. Sabem que podem convencer mais facilmente alegando que é um investimento. Como se o conhecimento por si só e o processo de autoconhecimento não fossem investimento. Eu me perguntando é o que vai ser do mundo com tanta gente se dizendo instrutor disso, professor daquilo. Mas a resposta é simples: não vai acontecer nada. A longo prazo vai acontecer o que sempre acontece: as coisas se adaptam e alguma nova categoria é criada para separar uma coisa da outra. Mas enquanto isso as pessoas sofrem e muita bobagem é dita. O sofrimento e a bobagem fazem parte da vida, mas essa forma escrota de explorar a fragilidade das pessoas é desprezível. A vida é muito mais do que ter um emprego, uma profissão. O título de “instrutor”, “professor” ou “mestre”, não torna ninguém mais sábio ou qualificado. Não entenda meu discurso como uma alusão ao “foda-se” a formação, não é isso. Mas se você precisa de alguma formação pra se achar capaz de qualquer coisa ou acredita que esses cursos, autônoma e isoladamente, realmente formam alguém, eu te digo: foda-se. Não pense que eu detesto o tal DeRose. Apenas acho que ele é um empresário cara-de-pau que gosta muito de dinheiro. Vejo-o como um Edir Macedo menos ridículo. Mas minha opinião também é ridícula e não conta, ninguém precisa concordar com nada. Eu realmente queria acreditar que esses muitos instrutores que já começaram a aparecer há um tempão estivessem interessados em instruir, ensinar, contribuir para a formação de outra pessoa. Não acredito que se dedicar ao processo de formação de outro indivíduo seja o que realmente mova essas pessoas. Um guru amigo meu diz: “Quem não sabe, ensina”. Enfim, para aqueles que gostam de um textinho cheio de fontes, procurem as informações sobre o DeRose nos livrinhos dele. Em todo caso, sigam o conselho do ET Bilu: busquem conhecimento.

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