Qual o valor da arte?

Alguma vez você já se fez essa pergunta? Qual o valor da arte? E quais são os seus valores? Se você é do tipo de pessoa que pensa que um quadro que vale quarenta mil dólares é mais valioso que um de sessenta reais, ou acha que porque se formou em canto lírico numa universidade federal está mais capacitado que o cara que toca saxofone no metrô, sinto informa-lo que as nuvens não são de algodão. Também há aqueles que acham que pintores são mais artistas que escritores de novela, ou que arte moderna é algo impossível de entender, quando não predomina o pensamento de que cada um tem sua interpretação e foda-se o que o cara expressou ali. A verdade é que cada um tem mesmo sua interpretação e no fim das contas pouco importa entender ou não, pouco importa o que o suposto artista quis dizer. Adoro especulação sobre arte de gente morta. Eu não acredito numa relativização total das coisas como temos sido levados a pensar. Acho que existe, sim, uma razão para algo ser belo ou funcional, mas acho que o esforço que as pessoas fazem quando saem em defesa do seu próprio belo – travestido de vários outros nomes – desloca o foco de algo realmente importante para uma discussão de merda. Mas não era sobre verdades relativas ou absolutas que eu queria falar. Isso fica pra depois. E o valor? Para o valor, sim, eu acredito numa relativização absoluta (já voltei pra porra do assunto anterior…). Quando eu era criança havia um programa (que muita gente vai se lembrar) do grande mago Silvio Santos: “A Porta da Esperança”. Como eu sonhava ser sorteado (mesmo sem mandar uma única carta) pra participar daquele programa! Na minha lista de desejos havia casal de cachorros da raça São Bernardo (não me pergunte como eu iria manter, eu era criança e não tinha ideia que cada cachorro daquele pesava mais de sessenta quilos e só de cocô devia ser uns dois quilos por dia), bonequinhos “Comandos em Ação”, mini moto, etc. Não entendia como tinha gente que ia lá e desperdiçava a oportunidade pedindo pra emagrecer. Eu não sabia, pelo menos conscientemente, mas “A Porta da Esperança” mostrava a quem quisesse ver valores pessoais. Quer dizer, alguém pedia uma piscina e logo ia um cara e realizava o sonho dessa pessoa. A tal piscina era então uma das coisas mais importantes na vida daquela pessoa. Já pro cara que tinha a empresa que cavava o quintal e instalava a cobiçada piscina, importante mesmo era conseguir essa “ponta” na TV domingo à tarde. Na verdade mesmo, por mais difícil que seja pra você aceitar, quadro nenhum vale uma rúpia. As pessoas às vezes se perguntam, ou deixam a pergunta solta no ar: “Como é que alguém dá não sei quantos milhões numa cueca do Elvis com rastro e autógrafo?” Do mesmo jeito que você paga não sei quantos mil reais pra assistir o carnaval de Salvador de camarote. Um dia desses eu vi um compositor divulgando uma chamada: “Você, intérprete ou ensemble ou o caralho, essa é a sua oportunidade de ter uma peça composta com exclusividade, sem nenhum custo! Envie até sei lá que dia uma proposta e eu farei uma peça especialmente para você!” Num primeiro momento eu pensei: “ninguém vai valorizar o trabalho desse cara”. Mas depois eu pensei melhor e cheguei à conclusão que ninguém precisa valorizar porra nenhuma. O cara só quer compor e ver a galera tocar. Foda-se o que vão pensar. Seria melhor fazer uma música pra ficar guardada e nem sequer compartilhada? Se você quer alguma coisa, você tem que ir atrás. Claro que há uma série de outras questões pelo meio que devem ser consideradas (antes que venha algum chato falar merda). Mas e o valor da arte? Imagine se Mozart não tivesse deixado registradas umas partituras legais. Pois é, muita gente não deixou e não há como ter ideia do que de fato perdemos. Eu mesmo já caí na armadilha de julgar um gênero musical por algum parâmetro imbecil qualquer. Que idiota eu fui. Será? Sim, se o que foi levado em questão foi simplesmente o gênero e seu contexto; e não, se foi algo do tipo “Que merda que é chiclete com Banana!”. Então quer dizer que valor está ligado à qualidade? Não. A maioria das pessoas acham que sim, mas não está. Mesmo o Chiclete com Banana tem algum valor artístico, por mais difícil que seja pra mim admitir isso. Mas não tem qualidade musical nenhuma. Nenhuma. Nenhuma. Ne-nhu-ma. Não se valoriza arte pelo custo do ingresso (sim, custo, porque o valor do ingresso é diferente pra cada pessoa). Não se valoriza arte fazendo de conta que o que está na moda é legal. Seria até legal se a gente valorizasse o que tem qualidade. Mas seria louco, cara. Acho que seria mais louco do que legal. O valor da arte está diretamente ligado aos seus valores pessoais. Vivemos num mundo que precisa de leis e programas para “valorizar” uma cultura. Mas não há lei que implante valores humanos. Ainda bem.

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