Simplória educação

Nos últimos tempos, quero dizer, últimos anos da minha ridícula existência nesse mundo, tenho percebido um discurso assustadoramente vazio sobre educação. O que pensar quando gente sem o mínimo aceitável de uma educação, não educação formal ou escolar (essa é a que menos importa) adota uma postura cega de dizer que a educação é a solução de todos os problemas? Esse é um ponto tão complexo que nem se a banalidade com que tem sido tratado fosse varrida do planeta imediatamente, seria possível algum entendimento mínimo nos próximos 200 anos. O fato é que educação não tem nada a ver com escola em si, diploma ou investimento do governo. Tudo bem, tem um pouquinho só, admito. Mas de uma forma muito diferente da ideia difundida de que se o governo investisse em educação o país (refiro-me ao Brasil, mas poderia ser qualquer outro) mudaria completamente. Já seria alguma coisa, entretanto, admito. Mas como eu sou um mago, sei que o processo envolvido na obtenção de um resultado ressignifica completamente esse tal resultado, ao ponto de tornar um resultado potencialmente positivo indigno de ser considerado um resultado (sacou?). Enquanto se discutem números, pessoas reais tem vidas devastadas; outras completamente transformadas; outras tornam-se aberrações difusoras de “não ideias”. Tive imensa sorte de, em alguns momentos, estar cercado pelas pessoas certas, educadores, professores, magos e monges, que tinham a consciência não só do que é educação, como dos processos envolvidos no seu desenvolvimento e partilha, e reais efeitos de uma auto-atitude responsável. É muito fácil abrir a boca e dizer que educação é a solução para todos os problemas. Talvez até seja uma grande parte da solução (consolo ou alívio temporário) nessa missão impossível (resolver todos os problemas). Entretanto, caro Sancho Pança, se você não tem ideia do real poder, consequências, e antes disso, consciência do que de fato é educação, haverá infinitos malandrinos nesse caminho sem fim. Enquanto se lança mão de números pra falar de diplomas, novos doutores e diminuição de analfabetismo, tenho vontade de me lançar de um precipício ao ver tamanha atitude simplória aceita por esse povo sandeu. Vi alguns aprendizes de feiticeiro questionando sobre o espaço no mundo para tantos doutores, tantos especialistas. Sempre há espaço para aquele que realmente busca e acredita no que quer que seja. E então? Com a mesma superficialidade com que o assunto é tratado, respondo com outra pergunta, assim como os burros fazem: para quê? A consciência sobre o real significado de formação acadêmica é tão ridícula que nem sequer deve ser chamada de consciência. É uma inconsciência. Como disse um mago nordestino: “a vida realmente é muito diferente, quer dizer: a vida é muito pior”. Estou assistindo um movimento crescente de “desformação” (poderia até ser “deformação”, se houvesse algo formado), de fabricação de “deseducadores”. Uma tragédia. Por que? Porque o assunto não é tratado com decência. Se é cada vez mais fácil se “formar” em um curso qualquer, fazer mestrado em uma “desuniversidade” qualquer, ser doutor em “reprodução das formigas anãs sob os efeitos do aquecimento global”, é cada vez mais óbvio um desastre no que chamamos de sistema educacional, que na ingênua presunção de alguns é a preparação para a vida real. Mas e aí? E aí que não se pode aceitar que um professor que não sabe nada e nem quer saber, seja chamado de professor. E aí que não se pode tomar como verdade o que há escrito num diploma. E aí que alguém que, na posição de professor, não se importa, desencoraja ou humilha seus alunos, é merecedor de eutanásia. O problema da educação é que ela não é o que dizem. O problema maior é que ninguém se importa. As pessoas querem emprego. Também quero emprego. Mas a custo de quê? O processo de formação de consciência dá muito trabalho, traz conflitos, instabilidade, mas é o real ponto de partida. Não há garantia de salário ou felicidade, mas de liberdade. Uma liberdade insólita de dizer: fracassei no que eu realmente queria, me fudi, virei mendigo. Mas isso não seria fracasso, seria apenas consequência de investimentos vistos como inviáveis. Embora não considere uma real possibilidade, preferiria ser músico mendigo do que médico zumbi. E há muito tempo que perdi o medo de virar mendigo. Mas se virasse, diria: “foda-se, sou um mendigo educado”.

Anúncios

Algo a dizer?

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s