A que custo?

Não dou a mínima pra Copa do Mundo. Mas antes disso, não dou a semínima pra futebol. Nem uma semifusa em prestíssimo. Nem um ornamentozinho sequer. Aliás, ornamento tem tudo a ver com a Copa. Tudo enfeitado, todo mundo feliz, torcendo pelo Brasil. Esse é meu país. No Brasil, onde eu nasci, as pessoas são, sim, as mais felizes que já vi no mundo. As que mais sorriem, pelo menos. Por muito tempo eu realmente acreditei que as pessoas riam mas não eram felizes. Estava enganado, elas são felizes pra caralho. Acho que no fundo as pessoas no Brasil levam ao extremo a máxima “a felicidade está nas coisas mais simples e pequenas”. Também acredito nisso. Mas a que custo? Um ano atrás eu andava pela rua vigiando a retaguarda, computador na mochila (mesmo com todo mundo me dizendo pra não fazer isso porque seria roubado ou a desgraça), dormindo mal pra caralho porque todos os dias às três da manhã um caminhão de lixo do inferno fazia mais barulho que os ridículos torcedores de qualquer time fazem pela rua quando esse time qualquer vence (se você é um desses torcedores, saiba que eu acho sua existência ridícula e digna de extermínio; mas minha opinião também é ridícula e não vale porra nenhuma), tinha um turno para a resolução de qualquer problema bancário ou que exigisse me deslocar pela cidade, e um monte de outras coisas chatas pelo meio. Tudo bem, tinha um monte de coisas legais pelo caminho, eu não só admito como faço questão de lembrar (mas não preciso citar agora, me poupe, né?). Mas e daí? E daí que o condicionamento das coisas agradáveis à “permissão” do “mal” que está nas ruas é de lascar. Qual o sentido em ter um computador portátil e não carregar esse computador, tornando-o assim nada portátil? O mesmo sentido que há quando eu vou a algum lugar comer qualquer coisa e o funcionário (que está na minha frente) grita o outro funcionário que está lá na puta que pariu pra saber o que eu comi. As chances de eu dizer que tomei um café quando na verdade comi lagosta são quase inexistentes (nem tanto… mentira, são quase inexistentes mesmo). O medo rege a vida das pessoas no Brasil. O medo de ser enganado, o medo de ser assaltado, o medo de não curtir a vida, o medo de perder dinheiro, o escambau. E tem aquele conhecido medo de virar mendigo também. Mas e a Copa? Da existência ao ato de torcer pela “seleção brasileira” a Copa é uma expressão do medo dos nossos queridos governantes de não parecerem, ao fim do governo, bons governantes, ou de não ficarem bem na fita na visão dos gringos. Como se isso fosse possível; que burros, dá zero pra eles. É a expressão do medo que as pessoas normais tem de se tornarem anormais ou pessoas que sempre reclamam do Brasil. É o medo de se sentir tão só, longe do Brasil, num país distante, travestido de patriotismo. A Copa é mesmo a cara do Brasil: um lugar especial, com tantas caras, tantas personalidades, mas com dificuldade de fazer escolhas. E ainda tem gente dizendo que em outubro mostra atitude votando certo. Foda-se. Há tantas adversidades no Brasil que, não satisfeita, a galera parece achar divertido impor a si próprio mais adversidades à luta contra a adversidade. Foda-se de novo. Se pra mim já era estranho, desde guri, achar divertido assistir um jogo ao invés de jogar, é mais estranho ainda achar que alguma coisa faz sentido nessa Copa. Começo a concordar com um amigo meu que diz que isso é uma doença social. Pense bem: na calada da noite homens encapuzados somem com os moradores de rua em época de Copa e carnaval. Eu não consigo não pensar nisso. Era uma vez um bandido que sonhava ser cidadão, que acordou e não sabia se era um cidadão sonhando ser bandido. Cidadão, bandido, torcedor e mendigo: uma coisa só. Caralho, que assustador. Não vou curtir um jogo sequer em troca de amnésia. Não quero esquecer isso. Quero lembrar que enquanto eu tomo vinho verde com queijo de cabra, tem um cara revirando o lixo na frente da casa onde eu morava; enquanto eu faço música (algo que muita gente diz que não serve pra porra nenhuma), tem gente que sustenta uma família inteira com menos do valor de um ingresso; quero lembrar que enquanto uma pessoa abandona um gato na chuva, outra adota o mesmo gato e dá a ele uma vida melhor do que a da pessoa que o abandonou. O mundo é mesmo assim, escroto. Mas é tão especial que nem dá pra descrever. Não me venha com papo de que o voto democrático é a solução; que dar diploma é dar educação; que ninguém vai mudar o mundo. Vem muito antes disso. Se a gente começasse a se lembrar que pessoas são pessoas, iguais em todo lugar do mundo, talvez começasse a fazer diferença para a trigésima geração. O Brasil é tão especial que as pessoas mandam o presidente tomar no cu, na cara (pode ser na cara de cu também), com a mesma vergonha que o presidente tem de dizer que estamos preparados para a Copa. Então, qual o sentido disso tudo? Como tudo no Brasil, nenhum. Se serve de consolo, ninguém sabe ao certo qual o sentido da vida. E ela é de fuder.

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