Lazer e foder são a mesma coisa?

Uma pessoa muito influente em minha vida de músico certa vez fez essa pergunta a uma plateia durante uma das primeiras apresentações de um grupo que nem tinha muito a ideia que já era um grupo. A reação das pessoas foi rir. Inclusive a nossa, do tal grupo. Não vou entrar em muitos detalhes, até porque não lembro, mas hoje tenho uma ideia maior do que poderia ser minha resposta a essa pergunta. Mas rir traz sempre algum prazer. Espera-se que no lazer tenha algum prazer também. Freud se refere ao prazer como gratificação. Também fala do prazer traçando um paralelo com a realidade, onde um é quase o oposto do outro. Algo do tipo: o indivíduo busca, por natureza, uma satisfação imediata, um prazer instantâneo. Mas nesse mundo louco, cheio de coisas pra fazer, onde a maioria das pessoas nem sabe direito o que faz (e para quê), a realidade parece ter muito mais a ver com tudo, menos prazer. Ou o cara adia a satisfação, suportando a dor e a realidade, ou vira o mimado mendigo do prazer. A explicação de Freud é essa: o princípio do prazer é oposto ao princípio da realidade. Então quer dizer que quando a gente tira férias, vai passear no parque no domingo, passeia com o cachorro na tarde de sábado, ou toma uma caneca gigante de cerveja na sexta feira à noite, é porque está colhendo os frutos de um trabalho árduo e difícil e, desta forma, curtindo a gratificação? Sim e não. Na maioria das vezes é só um universo paralelo mesmo, onde se faz o que realmente se quer. Mas e a recompensa? Pode ser também, afinal, quando há trabalho há dinheiro e independência (pelo menos em tese). Agora lembre-se que sou músico e mago. Então pra mim o lazer pode aparecer depois de algum tempo compondo uma música e, depois do devido trabalho e esforço, vejo o sucesso do trabalho por meio da autoconsciência de um benefício construído através de um caminho que só eu posso fazer, afinal. Claro que há prazer durante o processo, mas, nesse caso, o prazer (que chamo agora de lazer) vem depois do tal trabalho e do prazer simultâneo ligado ao processo. São prazeres diferentes. E foder? Quem tem o mínimo de envolvimento com música (qualquer pessoa que viva na Terra) certamente já ouviu alguém relacionar o ato de tocar com o ato sexual. E o clímax desse tocar com um orgasmo. Também tem gente que quando come uma coisa muito gostosa diz “hummm, gozei!!”. É a mesma coisa. Mas e daí? E daí que eu não sei porque diabos as pessoas não gozam com o que fazem. Por que pessoas entram numa universidade qualquer pra estudar música (ou qualquer porra) e não gozam o prazer de trilhar um caminho que leva a um gozo ainda maior? Por que diabos uma pessoa fala de música, estuda a porra de toda sua estrutura, conhece técnicas (que em muitos casos não servem pra nada), sabe a vida de fulano e o caralho, e não faz música? É a mesma coisa de estudar reprodução, ser ginecologista, ter polução noturna e achar que sabe o que é foda. No máximo essa prática se parece com masturbação, onde há lazer solitário, não compartilhado. Acho que não preciso dizer a diferença entre foda e masturbação. Consegue-se alguma maturidade quando percebe-se que é possível conviver com a impossibilidade de se satisfazer na hora em que bate a vontade, sabendo que a recompensa virá, em algum momento. Caminhar no parque, ir à praia, viajar, jogar bola, pelo ato em si, não tem nada a ver com lazer. Um sem teto pode caminhar no parque ou na praia todos os dias e não sentir nada de bom com isso; um executivo pode conhecer vários países em menos de uma semana sem ir a outro lugar além do escritório; vários jogadores de futebol claramente detestam jogar bola. As dificuldades do mundo (e do mundo que cada um vive) não precisam ser vistas como um fator determinante na criação de uma realidade ilusória onde o prazer está separado da necessidade e obrigação, desligado e secundário, num sentido de grau de importância. Eu sei que enquanto isso eu continuo gozando com minha gaita (em português de Portugal essa frase é uma maravilha), e trazendo pro do meu dia todo lazer que posso. Daqui a pouco começa a Copa no Brasil. Certamente, pra mim, não há lazer nenhum envolvido nisso. Vou ali tocar minha gaita.

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