Música, artes marciais, caminho e competição

Há algum tempo que queria falar sobre isso. Depois de uma certa conversa e me dar conta da minha própria condição e descrição no blog (compositor, guitarrista, gaitista, judoca, mago e preguiçoso) fi-lo porque qui-lo (sempre quis dizer essa aberração de expressão da minha tão incompreendida língua portuguesa). Antes que alguém me pergunte ansiosamente o que Judo tem a ver com música, queria abrir um parêntese (bem grande, por sinal) sobre um aspecto amplamente mal entendido. No Japão, antes de existir o Judo existia o Jujutsu, que nada mais era do que todas as artes marciais com todos seus rituais de etiquetas, armas, técnicas, filosofia, roupas, etc, etc, etc, e, principalmente, a forma como eram ensinadas. Só estou falando do Japão, não me pergunte de Kung Fu ou capoeira, please. Em tradução livre e tosca “jutsu” significa “arte”, “ju” significa “suavidade”, “aiki” significa “harmonia”, “ken” significa “espada”, e etc, etc, etc. Por isso é fácil encontrar “jujutsu”, “aikijujutsu”, “kenjutsu”, “kyujutsu”. Tudo isso é, em essência, um recorte do jujutsu. Pensando de uma forma tosca, mas é. “Ryu”, por sua vez, significa escola, no sentido de “como as coisas são ensinadas”. Se houvesse um mestre chamado Zezinho, por exemplo, talvez fosse possível encontrar o estilo aiki-ken-jujutsu-zezinho-ryu, ou seja, uma forma de ensinar jujutsu com enfoque na espada e uso do “não confronto” praticada por mestre Zezinho. Depois da era Meiji, se não me engano, o Japão se abriu (até demais) para o mundo e os nomes e termos começaram a ser utilizados de uma forma um pouco diferente, afinal as culturas são diferentes e veem as coisas de uma forma diferente, pensam de forma diferente. Muitas merdas são feitas quando há uma tentativa de tradução. Acontece que um cara muito legal, um verdadeiro mago, chamado Jigoro Kano, “inventou” o Judo. O próprio Jigoro Kano diz que não inventou o Judo, apenas fez uma síntese do que poderia ser ensinado de forma mais didática, segura, eficaz, etc. Ele focou na educação e, claro, criou técnicas também. No início era Jujutsu da Kodokan (vá pesquisar pra saber o que é Kodokan). Quando os brasileiros aprenderam o Judo com o Maeda (Conde Koma), adaptaram a arte (ainda havia arte e suavidade no judo, era bem diferente dessa truculência de hoje) à realidade brasileira, inventaram outras técnicas e desenvolveram de acordo com a realidade física dos brasileiros também (ou você acha que o corpo de um japonês é igual ao de um brasileiro?). Mas e daí? E daí que as pessoas, loucas como elas são, esqueceram de umas das coisas mais importantes no Judo: educação. Tive a sorte de ter dois mestres que tem o verdadeiro Judo dentro de si (Sensei Sobreira e Sensei Luís Edson). Então, atualmente o Judo é esporte, não arte marcial. Antes que alguém me questione sobre o caráter educativo de um esporte, queria dizer que se não houvesse uma abordagem esportiva sobre o Judo, o jiu jitsu não existiria. Como assim? Simples. O Judo veio do Jujutsu e o Jiu Jitsu veio do Judo. Sério? É. Então, se seu professor diz que te ensina Jiujitsu “antigo”, como era antes do Judo ou coisa do tipo, mude de professor. O Jiu Jitsu nada mais é do que o Judo com outras regras esportivas. “Jiu” nem sequer existe em japonês. “Jiu” é a mesma coisa que “Ju”, que por sinal não se escreve assim, se escreve com aqueles símbolos maravilhosos dos alfabetos da língua japonesa. “Armlock” é o mesmo que “Juji-gatame”. “Kimura”, que por sinal é o nome de um judoca, é o mesmo que “Ude-garami”. Vem cá, você não ia falar de música? Ia, e estou falando de música. Música, assim como Judo (o Judo de verdade, não o que ensinam só pra ganhar dinheiro, ganhar campeonatos e aprender a derrubar alguém se machucando tanto quando o cara) são “do” (não falei antes, mas “do” significa caminho). É uma forma de vida. Mas as pessoas preferem pensar em competir, medir forças, ser mais que os outros. Há algo de positivo na competição, mas a vida já é competitiva demais. Na minha ridícula opinião de yudansha (é como se chama um faixa preta), a abordagem atual (quase totalmente esportiva) do Judo, focada nas regras de competição não tem quase nada de educativo e quase nada de Judo. Só pra lembrar, ninguém precisa concordar ou acreditar no que falei. Pesquisem (até porque isso não é um artigo científico, portanto, não me encham o saco pedindo as fontes). O mal que a competição e pensamento individualista traz para a vida das pessoas transparece nos argumentos que tentam convencer (como se a tentativa de convencer, por si só, já não fosse um ato desrespeitoso) sobre o que veio antes ou depois, qual deu origem a o quê, quem venceria quem se existisse uma luta. Vejo na música muitas pessoas tentando “inventar” coisas, ganhar concursos, tocar mais rápido, ser melhores, desenvolver técnica tal, etc, etc, etc, mas vejo pouca música. Como disse o mago Bartók: “competições são pra cavalos, não para artistas”. Como disse outro mago mais conhecido ainda: “quem tem ouvidos para ouvir, ouça”, “quem tem olhos para ver, veja”. O mago Kano falava sobre prosperidade e benefícios mútuos, vencer a si mesmo, autoconhecimento. Mas esse é um caminho que terás que descobrir e percorrer sozinho, pequeno gafanhoto.

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2 comentários

  1. E o quando falamos de sobrevivência, a competição não seria uma forma escancarada de estar na frente para garantir seu espaço? A competição não pode ser também uma característica de personalidade, ou até mesmo da natureza, e não somente uma filosofia? Acho que a competição não é sinônimo de desrespeito também.Podemos ser competitivos, mas ter em mente o compartilhamento, a evolução unida aos outros, mas ainda assim competitivo – eu busco o meu melhor sobre você, mas te estimulo a melhorar também. Talvez a competitividade se torne negativa dentro de um contexto, que haja pessoas com vícios emocionais ruins, como muito orgulho ou vaidade.
    Se eu vou praticar a luta, é inevitável que haja sentimento competitivo em mim. Quero vencer aquilo. Mas meu respeito e admiração ao oponente se mantém.

    E quanto à arte, essa é uma das coisas que talvez me faça ser pouco bem sucedido como artista. Não tenho competitividade. Adianta mesmo ser verdadeiro e profundo com minha arte, mas não ter uma técnica e expressividade que dispute com concorrentes de concursos e editais ? Infelizmente não sei forjar uma técnica e expressividade apenas para me ver incluso em sistemas competitivos. Prefiro manter minha profundidade mesmo, por mais banal que superficialmente minha arte pareça aos olhos de jurados. Nesse caso, não consigo ter um mínimo de competitividade.

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