Queria ser macaco

Jogaram uma banana no campo e o Daniel Alves comeu. Começa assim mais um daqueles debates generalizados sobre todas as coisas e ao mesmo tempo sobre nenhuma. Jogar uma banana no campo foi, sim, uma atitude racista. Isso ninguém questiona e todo mundo está de acordo. Aí o Daniel Alves come a banana e mais tarde explica: “Tem que ser assim! Não vamos mudar. Há 11 anos convivo com a mesma coisa na Espanha. Temos que rir desses retardados”. Depois disso o Neymar e mais um monte de gente começa a postar fotos com bananas sob um quase slogan “Somo todos macacos”. E aí começam a aparecer milhões de pessoas questionando a maneira como a posição antirracismo foi expressa. Li um texto do Douglas Belchior, na Carta Capital, sobre isso e achei muito interessante. Entretanto, quando esse tipo de coisa acontece (uma repercussão muito grande a partir de uma “pequena” atitude inicial) eu me sinto meio estranho com a reação da maioria das pessoas. Todo mundo reclama de tudo o tempo todo. Reclamam que o país é racista, que deve-se discutir mais o racismo, que as pessoas devem se posicionar, que isso e aquilo. Mas também parece muitas vezes que as pessoas não gostam quando alguém dá o pontapé inicial. Não pude deixar de observar que o próprio Douglas cita o ditado africano “Cada um vê o sol do meio dia da janela da sua casa”. E daí? E daí que quem levanta a questão de a riqueza, dinheiro e as cinco Ferraris é o próprio Douglas. Nós temos mania de nos colocarmos no lugar do outro a partir dos nossos valores. Ninguém sabe, de verdade, o que as Ferraris do Daniel Alves representam pra ele, e isso não tem a menor importância. Sinto um certo incômodo quando vejo palavras como “luta” associada ao combate ao racismo. “Luta” e “combate” numa mesma frase então é altamente tendencioso. Soa como ”luta pela paz”. Porque no fim das contas o fim do racismo representa um dos elementos para se alcançar a paz. Mas há um detalhe: a paz precisa ser construída; não se pode conquistar a paz através de formas violentas. É sério que eu acredito nisso? É. Quem me dera ser macaco e me ver livre de tanta chatice de gente discutindo de forma tão estranha. As pessoas tem o direito de ser brancas, negras, burras, ricas, o que quiserem. Também tem o direito de falar o que quiserem, mesmo se for merda. Olha pra mim, é o que faço agora. Sempre que alguém precisa diminuir uma coisa para elevar outra… dá merda. O Daniel Alves se posicionou da forma dele, o Neymar da dele, alguns outros só queriam aparecer engajados num movimento “legal”, outros nem sabem o que tá acontecendo. Não se trata de confundir Neymar com alguém preso injustamente por ser negro. Também me incomoda quando alguma coisa acontece a um negro e aí dizem “só porque é negro”. Um dos porquês do ensino escolar ser louco e não funcionar como educação é que as coisas são ditas através da negativa, tipo: “não matarás”. Implanta-se uma ideia que em muitas vezes nem existia como possibilidade. Pra mim a melhor forma de combater o racismo é não focar no racismo. Assim como a melhor maneira de combater qualquer problema não é focar no problema em si. Se as pessoas investissem na igualdade como atitude normal, não precisaremos ouvir discursões ridículas sobre conceito de raça, ver questionários com quadradinhos a serem marcados tendo como opção “pardo”; não nos sentiremos desconfortáveis em dizer “sou mulher”, “sou branco”, “sou negro”, sou “índio”, “sou travesti”; não precisaremos ver índios como pessoas incompreensíveis no mundo de hoje; não vamos ouvir “americano é tudo fila da puta”; não tentarão nos convencer de que muçulmano é terrorista. Não se trata de ignorar os problemas ou o que acontece de errado, trata-se de ver e mostrar o que realmente importa. Aí alguém vai me dizer que pra mim é fácil falar porque sou branco. Foda-se. E abrindo um pequeno parêntese: fodam-se também as camisetas do Luciano Huck. As pessoas sofrem e são discriminadas de várias maneiras o tempo todo. Ou já se esqueceram que quando os “gringos” chegam ao Brasil pagam mais que o dobro do preço em uma água de coco, açaí, ou caipirinha? Bom, vou ali comer uma bananinha enquanto observo o sol do meio dia da minha janela.

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