Medo de virar mendigo

Sou, sem sombra de dúvidas, uma pessoa de muitos amigos. Claro que não estou de acordo com a ideia de que amigos não mentem, não sentem inveja, não te deixam na mão e coisas do gênero. Uma sandice que volta e meia os adoradores dos clichês do mundo costumam proferir por aí. Amigos são pessoas tão falhas quanto eu, e como eu sou um ser humano miserável, não posso esperar que as pessoas sejam tão equilibradas e ajam de acordo com uma consciência que quase ninguém tem, ou que sejam coerentes (se alguém souber o que é isso, por favor me diga). O problema não é o problema em si, é o que você faz com ele. Esse mundo é tão legal e tão escroto que eu prefiro dizer a mim mesmo: easy baby. Mas não é exatamente sobre amizade que quero falar, embora a amizade seja um ponto chave na questão da mendicância em potencial. Tenho amigos com quem converso sobre assuntos específicos, outros sobre quase tudo. E foi conversando com um desses meus amigos de milhões de assuntos, sobre coisas que as pessoas pensam em realizar e alcançar na vida, que chegamos à conclusão de uma resposta que deve ser dada a qualquer pessoa que se questiona sobre seu futuro: perca o medo de virar mendigo, caralho! É sério, o medo paralisa. Nunca vi ninguém, que tenha escolhido fazer o que realmente quer e ama fazer, virar mendigo. Mas a gente vive num mundo em que o cara pinta pra caralho mas tem medo do futuro e resolve virar dentista, por exemplo. Vai fuder com a boca de todo mundo (com o perdão do duplo sentido do mal). Tudo bem, eu sei que muitas pessoas vão me dizer que a galera precisa ganhar dinheiro e a puta que pariu. Mas esse é só um exemplo ridículo de uma ideia, que se você não for um merda a ponto de podar sua criatividade e lógica, você vai entender. As pessoas acreditam piamente que se forem capazes de se firmar numa profissão cuja crença de estabilidade financeira está estabelecida por ignorantes limitados autossabotadores a vida será mais fácil e legal. É difícil encontrar equilíbrio até mesmo na arte de especular sobre o próprio futuro. Vejo muita gente entrando num curso superior pensando num emprego público. Vejo gente fazendo pós graduação para se tornar empregado ao invés de professor, educador ou pesquisador. Ter um emprego de professor é diferente de tornar-se professor. Ser um pesquisador é diferente de ser um coletor de informações, até porque pra mim coletor é aquele potinho que quando não está vazio está cheio de merda. Quando alguém pensa no emprego antes daquilo que deseja ser é porque algo de muito errado está acontecendo. Um bom professor transforma vidas, transforma o mundo; assim como um bom médico, um bom físico, um bom padeiro, um artista. Não me entendam mal, mas não estou nem aí pra bolsa do que quer que seja, número de vagas em concurso público, médicos de Cuba, aulas de música no ensino fundamental regulamentado. Todas essas discursões são discursões vazias e focam em efeitos de péssimas escolhas fundamentadas no controle de pessoas e da opinião pública. Se você levanta alguma bandeira de algum partido, movimento, classe ou o diabo, antes de buscar consciência enquanto indivíduo que é parte de algo assustadoramente grande e especial (não parece, mas eu estou falando do mundo e das pessoas em geral, por mais que a gente seja levado a pensar que não merecem), saiba que você está fazendo tudo errado. A maior parte das pessoas pensa sobre essas questões de futuro, de forma mais intensa e masoquista, a partir do final do ensino médio (minha referencia sou eu, com uns 16, 17 anos, mas não se sinta excluído se terminar o ensino médio com 30) até uns 40, quando pensam que começaram a viver a metade que falta da vida. Não sejam burros. A ideia que temos do mundo, em quarenta anos de existência é tão ridícula que se o mundo pudesse se personificar ele seria o Caetano falando aquela frase: “Como você é burro, cara.” Num período inferior a quarenta anos ocorreram duas guerras mundiais, Mozart compôs 41 sinfonias, o povo hebreu vagou pelo deserto só por castigo (eu não acredito, mas tá escrito), Jesus nasceu e disse tudo que dizem que disse (também não acredito muito, mas tá valendo). Também, em muito mais de quarenta anos ninguém conseguiu inventar uma sandália Havaiana que não solte a correia, o mundo existe há pelo menos alguns bilhões de anos, o mundo ficou quente, frio e quente de novo (sim, esse papo de aquecimento global é conversa fiada), e o metrô de salvador certamente não ficará pronto em menos de 270 anos. Então perca o medo de virar mendigo e faça algo por si e pelo mundo: não seja um merda que pensa na ideia ridícula baseada em um emprego ou dinheiro, ou farra, drogas e mulheres custeadas com o dinheiro desse emprego. Não perca tempo pensando bobagens e coisas negativas. Coisas boas sempre acontecem, muito mais que coisas ruins. Abandone as coisas em que acredita e o mundo refletirá esse tipo de atitude. A vida passa e a possibilidade de mendigar por uma segunda chance é real. O que esse meu amigo, dos milhões de assuntos, e eu costumamos pensar sobre deus (sim, escrevo com letra minúscula), vida além da morte e tudo mais que ninguém sabe porra nenhuma é: “Seria bom demais pra ser verdade. Vamos apostar tudo nessa vida mesmo?”.

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