Pardo eu, pardo você

Volta e meia alguém diz algo sobre preconceito e logo vira discursão, nem que seja eu comigo mesmo (ou com meus 17 alteregos). Talvez pelo constante exercício necessário de refletir sobre as coisas (?), talvez pelo desespero que todo ser humano – comum, mago ou marginal – sente ao tentar se situar nesse mundo totalmente crazy e dinâmico. É bom lembrar que tudo que eu digo é só minha opinião e qualquer um pode se sentir livre para me ignorar em qualquer ponto de divergência conceitual, espiritual, sexual, político ou o escambal. Lembre-se também que você é livre para não ler. E lembre-se que eu também sou livre para fazer o mesmo sobre a sua opinião, ok? As pessoas costumam dizer que odeiam o preconceito e blá blá blá. Sou extremamente preconceituoso. Por enquanto é apenas preconceito, ainda não estou falando sobre discriminação. Compro o livro pela capa, vejo o filme pelo título, atravesso a rua se vejo alguém mal vestido (mentira, só me preparo para a luta), e até passei mais de dez anos dizendo que não gostava de estrogonofe por achar feio e  nunca ter comido. Agora vamos falar sobre discriminação. Não compro livro de Paulo Coelho ou qualquer outro que tenha na capa uma cena do filme do qual foi adaptado, não confio em que lê horóscopo e jamais sorrio se estiver em um carro onde quem comanda o som é fã de Pablo do arrocha. Ok, discriminação nem sempre parte de uma ideia formada sobre o que quer que seja. Mas isso foi só a introdução de um dos milhares de pontos. O ponto onde quero chegar é outro. Se o Steve McQueen (aquele de “12 Anos de Escravidão”) tivesse colocado um anúncio dizendo “procura-se homem negro, entre 30 e 40 anos, para papel de filme sobre escravidão” ninguém acharia anormal. Entretanto, se o mesmo acontecesse com o realizador de “Thor”, cambiando “negro” para “branco”, o coitado seria apedrejado e amaldiçoado até a vigésima geração. Não sei você, mas eu não me sinto ofendido em nenhuma das hipóteses. Sinto-me, sim, vilipendiado à enésima potência da bomba atômica e comparado a um avestruz quando o funcionário lá da Secretaria de Segurança Pública coloca no meu cadastro para emissão de documento de identidade a classificação da minha “cor” como “pardo” sob o argumento de que no Brasil todos somos “misturados” e essa é a orientação que eles recebem. Eu e minha namorada nisei somos pardos. Acho interessante como as leis são feitas e certos costumes estabelecidos. A palavra “pardo” me faz pensar num urso, um envelope e até um pardal, mas jamais uma pessoa. Preconceito é coisa séria e existe em toda parte. E existe algo extremamente prejudicial que vem crescendo sutilmente no meio de nós (lá ele), e que uma hora dessas vai dar merda. Estamos caminhando para um momento em que a liberdade pode custar tanto que será mais seguro sujeitar-se à prisão (será?). Pelo menos a liberdade de expor sua ridícula opinião (como eu faço agora). Coitado do Luiz Gonzaga se tivesse escrito nos dias de hoje “só de baixo cento e vinte, botão preto bem juntinho feito nego impariado” (Respeita Januário). Mas por que diabos alguém coloca a pergunta “cor” num cadastro de emissão de documentos? Só seria aceitável se fosse minha cor preferida, mas duvido que isso seja interessante ao nosso querido Brasil. Como é possível  que coexistam a “Lei da igualdade racial” e o discurso de uma única “raça”? Por que tanto desconforto com terminologias? Acho horrível “raça” e pior ainda “etnia”. Raça me faz pensar em Poodle, Pastor Alemão, Doberman. Sempre que ouço etnia penso em tribos, aborígenes. Sabia que “etno” vem do grego “ethnos” e se refere a povo ou grupo de pessoas que vivem em conjunto? Imagino se eu, o Pelé, ou o Cacique Juruna tivéssemos nascido no Japão. Mas por que estou vomitando esse monte de questões? Porque me senti estranho ao ver todo mundo babando o ovo de “12 Anos de Escravidão”. Falaram mal do Tarantino por causa de Django, dizendo que a escravidão e o preconceito foram tratados de forma superficial e a puta que pariu, mas se esqueceram que cinema é arte, e arte não se resume à documentação de fatos ou imitação de acontecimentos reais. Tá certo que o Oscar é uma merda, mas grande parte das pessoas dá atenção a isso ou pelo menos ouve falar. Mas um fenômeno interessante aconteceu: um negro falou mal de “12 Anos de Escravidão”. Foi um cara chamado Orville Lloyd Douglas. Há uma regra nessa loucura que envolve o preconceito real e o de brinquedo, onde as pessoas tem medo do que falar: Falar mal do próprio “grupo” tá liberado. Pelo menos as chances de ser pego pelas pragas do Egito (com a devida licença poética, sem nenhum xenofobismo) são bem menores. Por exemplo, posso falar mal do Brasil abertamente e livremente e ainda vou ser apoiado por outros milhões de brasileiros. Mas se um francês, espanhol, turco, vietnamita ou canadense fala… Opinião e preconceito são diferentes mas podem estar juntos. Mas lembre-se: nem sempre estão. Com preconceito também vem os estereótipos. Queria dizer que gosto da cultura negra sem parecer um chato do movimento negro (sim, na maioria das vezes são mesmo muito chatos e isso não é preconceito, é opinião). E já que é só minha opinião, na Bahia a gente encontra uma África em cada esquina mas não encontra um tupinambá. Queria dizer que gosto de “coisas” de índio sem ser tomado por antropólogo. Não importa o que, quem ou como você seja. Em algum momento o preconceito o encontrará. Então, que tal se tentarmos ser menos defensivos e rejeitemos pelo menos metade desses falsos eufemismos e estereótipos? Que Tupã esteja conosco.

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