Mini vida

“Sucesso”. Qual a primeira coisa que vem à mente ao ouvir (ou ler) essa palavra? “Ou sucesso na vida”? Na minha cabeça aparece uma imagem que costumava descrever toda vez que pensava em objetivo de vida: “Estar sentado numa cadeira de balanço (ou poltrona quentinha) numa casa nas montanhas com janelas de vidro, num dia frio, chovendo, ouvindo Coltrane (na época meu músico de jazz preferido ainda não havia se estabelecido, mas a imagem é minha e eu descrevo agora como eu quiser, foda-se), tomando um chocolate quente (ou vinho), numa sala à meia luz, e um cachorro peludo deitado próximo à cadeira”. Uma vez ouvi alguém (que eu não me lembro quem, sorry) descrever o sucesso como sendo “estar onde se quer chegar”. É daquele tipo de definição que de tão óbvia a gente esquece, se perde no significado, muda a porra toda. O fato é que depois desse dia comecei a ver os vários “mini-sucessos” que cercavam o meu dia-a-dia. Comprar isso ou aquilo, aprender uma coisa ou outra, conhecer um lugar diferente, terminar o trabalho para o dia seguinte durante a madrugada e ainda tirar nota alta, fazer vinte flexões de braço, usar a agenda até o último dia (ou simplesmente usar a agenda), ser faixa preta, terminar de ler um livro, comer mais fatias de pizza que everyone, ficar acordado pra ver o relógio marcar “00:00” (eu sei, isse é mesmo ridículo, mas já fiz quando era pequeno), ficar rico (não, isso não, muito clichê), melhorar no que quer que seja, e mais umas 12984641934593 coisas que seriam facilmente lembradas, porém chatas de ficar lendo. E dançar (é verdade, eu queria saber dançar mas nunca aprendi). Então porque diabos alguém associa o sucesso a alguém que ficou famoso num reality show, ou plagiou uma música que tocou (encheu o saco) na época do carnaval, ou ficou rico chutando uma bola? Tudo bem, admito que pra essa pessoa (a do reality show, carnaval e futebol) isso poderia ser sucesso. Mas esse não é o ponto. E antes que alguém lance sobre mim todas as dez (eram dez, né?) pragas do Egito, saibam que não tenho a intenção de ferir o orgulho, ofender ou falar mal do sonho de ninguém (mas não me importo se isso acontecer, confesso). É só minha ridícula opinião, na minha ridícula existência de quase trinta e um anos (velho pra caralho). Voltando ao ponto, o ponto é que sucesso está muito além de coisas banais, superficiais, estáticas e/ou efêmeras. É dinâmico. Durmo muito feliz depois de encher a cara no França, por exemplo. Como diz um amigo meu: a felicidade é isso. Isso o quê, encher a cara? Não. É poder estar com amigos (os little friends!!) onde nos sentimos bem, fazendo coisas que nos fazem bem, sabendo que aquele momento vai passar. Então sucesso é felicidade? Mais ou menos. Uma série (pode até ser dodecafônica) de acontecimentos bem sucedidos nos leva a uma certa felicidade. Uma felicidade finita, porque tudo é finito (não, não acredito em um paraíso cheio de virgens, cachoeiras, bichinhos brancos, pessoas vestindo uma túnica branca sem nenhum momento de tristeza). E daí? Bom, se eu fosse peladeiro e ganhasse rios de dinheiro, certamente seria infeliz e todas as pessoas veriam a minha tristeza transparecer na minha cara magra e barbuda. E diriam: “como alguém tão bem sucedido é tão triste?”. Fique longe de pessoas que pensam assim, elas não tem nada a acrescentar à sua vida. Vejo muitas vezes pessoas se acabando de trabalhar pra juntar dinheiro (???), vivendo em condições indignas, olhando pra um futuro totalmente projetado, inexistente, imaginando um lugar chamado sucesso, objetivo, “dia em que me tornei feliz”. Às vezes faço um exercício mental que consistem em me perguntar: “E se eu morresse agora?”. A morte faz a gente pensar sobre a vida. Uma vida bem sucedida depende de muitas coisas, muitos “mini-sucessos”. Depende do empenho pra ir (e, às vezes, chegar) onde se quer. Depende mais dos erros do que dos acertos. Engraçado, mas hoje eu ouvi Coltrane, a casa fica na serra, tá frio pra caralho, uma chuva desgraçada lá fora, ainda tô sentado na poltrona, a sala está à meia luz (a luz é fraca e a TV quebrou), e vou beber o resto da garrafa de vinho da semana passada agora. Só faltou o cachorro.

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